Menina não pode brincar?

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No último domingo, a empresa GoldieBlox – que cria brinquedos com o objetivo de aguçar o interesse de meninas pela ciência – fez história ao veicular o primeiro comercial feminista do intervalo do Superbowl. Na propaganda, garotas recolhem bonecas, miniaturas de utensílios domésticos, castelos e tiaras (tudo rosa!) e literalmente os mandam para o espaço. A mensagem é clara: chega de estereotipar a infância! Abaixo, a publicitária Luíse Bello escreve, com um olhar pessoal, sobre a relação entre consumo e infância, tema que inspirou seu trabalho de conclusão de curso.


Sou a caçula de três irmãos — duas meninas e um menino. Muito antes de aprender sobre o feminismo e a pensar sobre a questão da mulher, tive a chance de observar desde o berço e em primeira mão a desigualdade na criação de filhos de gêneros diferentes.

Nunca ganhei uma bola. Bola é coisa de menino. Não existe o equivalente de bola para meninas. Uma bola não faz nada se você não fizer algo com ela – o que é tremendamente estimulante para a imaginação. É um brinquedo simples, mas completo para vários tipos de jogos. Um menino quando ganha uma bola é incentivado a correr, jogar, se movimentar, até a praticar esportes por diversão.

Acho que a minha irmã chegou a ter uma bola de vôlei, mas foi somente após demonstrar interesse pelo esporte. Definitivamente, não é a primeira coisa que nos vem à mente quando vamos presentear uma menina. Para meninas, tudo tem que ser rosa, de princesa, de casinha. Nada que as deixe suadas ou descabeladas.

Mas as coisas não são assim porque os pais são ruins em essência para com as mulheres: é a nossa sociedade leva adiante valores ultrapassados por pura inércia. E não existe propagador maior de tais valores que o mercado de produtos infantis, cujo papel na infância de crianças expostas a horas de anúncios em todos os meios de comunicação diariamente é, no mínimo, fundamental.

Durante a infância, a fronteira entre coisas de menino e menina é robusta. A criança que ultrapassá-la será questionada, julgada, quiçá até examinada, e se tornará motivo de forte preocupação. O que será de uma menina que não gosta de bonecas? Ou de rosa? Ou de brincar de mamãe?

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Desde muito cedo, as principais brincadeiras oferecidas para meninas são simulações do que é esperado que ela se torne na vida adulta. Menina só brinca de ser mulherzinha.  A Barbie ter um emprego, por exemplo, é algo tão grande na vida da personagem que produzem bonecas exclusivas com o tema de seus trabalhos. O acessório mais desejado pelas meninas, porém, não é a régua T da Barbie arquiteta ou o estetoscópio da Barbie médica, e sim o Ken, o marido, aquele que tornará a Barbie uma mulher casada e plena. Contanto que haja o Ken, sua Barbie nem precisa ser aquela que tem um emprego.

E quando não é a Barbie, são bonecas bebês que colocam as meninas no papel de mãe. Hoje em dia há bonecas que fazem até cocô, para que as pequenas possam ter uma ideia mais realista do que é ter um filho. Sempre achei isso cruel: qual é o prazer de colocar meninas nessa tarefa de trocar fraldas desde a infância?

Há quem diga que isso é o instinto materno aflorando desde cedo, que a menina quer imitar a própria mãe. Pode ser, é verdade que as crianças realmente gostam de imitar os comportamentos de adulto, mas será que isso ser estimulado a esse ponto?

Se é assim, porque não existe o Max Steel Veterinário e o Ben 10 Advogado? Não existem brinquedos masculinos que estimulem os meninos a ser pais ou a agir como adultos. Dos meninos é esperado que queiram derrotar o mal e salvar o mundo. Os seus bonecos voam, lutam, piscam, e tem até antagonistas, os vilões (vendidos separadamente, é claro) com os quais seus personagens entrarão em combates imaginários magníficos. E quando não são bonecos, são carrinhos, aviões, armas, autoramas. O menino nunca é colocado no papel de mero trabalhador, mas de herói. Nem inimigos a Barbie tem: não há conflitos em seu mundo perfeito.

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Até nos comerciais de calçados para crianças essa diferença é clara. Os sapatinhos dos meninos são apresentados como sendo resistentes, para acompanhar ritmo de muitas aventuras. Os anúncios exibem garotos escalando pedras, correndo, explorando o mundo com seu tênis e sandálias licenciados por algum personagem.

Já os calçados de meninas têm brilho, salto, um detalhe dourado, tons de rosa, lilás…  São apenas bonitos. Os anúncios mostram meninas vaidosas,  orgulhosas de seus lindos calçados novos que não são feitos para entrar em contato com terra ou lama, pois isso provavelmente os estragaria. Os sapatos de menina servem para incrementar o visual. E só!

E cada vez mais cedo as meninas largam as bonecas para cuidar de si mesmas. Não é à toa que o mercado de cosméticos infantis cresce a passos largos. São maquiagens, esmaltes, xampus e condicionadores exclusivos para que elas possam adotar o quanto antes os hábitos que levarão para a vida inteira.

Quando olho para trás sei que não tive uma infância sofrida. Fui feliz com as minhas Barbies e bonecas que amei com todo meu coração de mãe-menina. Mas hoje sei que tudo aquilo não era tão natural quanto me parecia na época. Como uma grande parte das mulheres, eu também fui encurralada desde criança nesse labirinto cor de rosa. Afinal, é o que as pessoas nas quais eu mais confiava me ofereciam, é o que aprendi na escola, é o que a televisão reiterava com seus anúncios separados para meninos e meninas.

Minhas boas memórias, porém, não me impedem de questionar tudo o que eu poderia ter sido se me tivessem oferecido possibilidades diferentes. Se desde pequena eu fosse estimulada a acreditar que poderia vencer o mal e derrotar vilões;  se eu pudesse copiar outros papéis femininos além de mãe/princesa/esposa; se meus brinquedos e jogos me levassem a explorar o mundo, e não me adequar a ele. Talvez seja esse o caminho para que as meninas descubram muito antes do que eu, por exemplo, o poder e a força do sexo feminino.


As ilustrações, feitas com carinho especialmente para este post, são da artista e designer Vanessa Kinoshita.

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.

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