A internet não gosta das mulheres

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Conheci a Marta Trzcinska, uma advogada norueguesa especialista em direitos das mulheres, na XII Conferência Regional sobre a Mulher da América Latina e do Caribe, da CEPAL. Em uma palestra, ela falou sobre as práticas de assédio e discriminação online contra as mulheres. Fiquei feliz de saber que alguém estava acompanhando mais de perto esse problema, pensando nos efeitos que ele causa às mulheres e em soluções de curto e longo prazo.

Claro que a violência online é apenas um desdobramento da violência cotidiana que sofremos nas ruas, no trabalho ou em nossas casas. E assim como as outras, ela não tem sido levada muito a sério, a não ser em casos que ganham grande repercussão nacional, como as fotos vazadas da atriz Carolina Dieckmann e da filha do Renato Gaúcho. O cyber-bullying ou o online harassment são práticas disseminadas na rede, mas ele é praticado de formas diferentes dependendo do sexo das pessoas.

Durante a campanha Chega de Fiu Fiu, a Juliana recebeu uma série de ameaças de estupro e teve sua aparência física colocada em debate. Um acontecimento lamentável que me chamou a atenção para a reprodução da prática que busca desqualificar argumentos e ideias pelo sexo da pessoa. A Marilena Chauí, lá na década de 1980, disse que a desigualdade, em suas diferentes formas, cria o problema do silêncio incompetente, que é o medo das pessoas manifestar suas opiniões em debates públicos por achar que não entendem ou não podem entender do assunto pela posição desigual que ocupam na sociedade.

A violência e agressão contra as mulheres em espaços de debate pode levar ao silenciamento de suas vozes. Quando a violência online é dirigida aos atributos físicos ou sexuais das mulheres, deixa explícita a mensagem de que o espaço público não é nosso lugar. Mas nós insistimos em dizer que sim, ele é de todas nós, e a ocupá-lo. Foi sobre esses e outros temas que conversei com a Marta..

Existe diferença no assédio virtual quando as vítimas são mulheres?
Todo mundo pode sofrer com assédio online, mas há uma diferença muito grande no tipo de assédio praticado dependendo do sexo da vítima. Quando homens se manifestam em debates, fóruns ou outros espaços online, eles geralmente recebem comentários sobre serem idiotas ou não terem competência ou qualificação para falar sobre aquele assunto. As ofensas às mulheres, por outro lado, é sexualizado. São comentários sobre a aparência, o tamanho dos seus seios e ameaças de estupro ou de serem molestadas. Em 2013, um canal de TV sueco produziu um documentário sobre violência online contra mulheres. Escritoras, jornalistas e apresentadoras de talk show contaram sobre suas experiências de assédio e das ameaças que receberam por expressar suas opiniões em público. O canal de TV postou uma parte do programa no Youtube. O vídeo recebeu tantas mensagens de ódio que o canal de TV teve que bloquear os comentários. Quando um jornal escreveu um artigo sobre o que havia acontecido com o vídeo do Youtube, esse artigo também recebeu o mesmo tipo de mensagem violenta. Não havia espaço em que essa história fosse divulgada no qual esse padrão não se repetisse. Parecia impossível quebrar o ciclo de ódio.

Que ações poderiam ser construídas para evitar práticas como essas?
O maior desafio, e o mais importante, é o de conscientizar a população sobre o assunto. Para conseguir fazer isso, o fundamental é que tanto os governos quanto a mídia assumam suas responsabilidades. Nos últimos anos, a mídia da Noruega tem se comprometido a monitorar comentários com conteúdo discriminatório. Os maiores jornais do país recentemente modificaram seus sistemas para que todos os que querem participar de debates online se registrem antes com nome completo, para que possam ser identificados. O assédio sexual online não está sendo levado suficientemente a sério pela polícia e pela justiça. Se essas instituições se dedicassem a essas práticas, passariam o sinal sério de que esse comportamento não deve ser tolerado por ninguém. Também é importante aumentar o debate sobre esses tipos de crime e sobre a igualdade de gênero já nas escolas, desde cedo.

No fim de 2013, duas jovens brasileiras cometeram suicídio após terem suas fotos e vídeos íntimos divulgados na rede. Nossa legislação sobre esse tipo de crime é muito recente e a polícia sempre diz que é difícil encontrar os culpados.
É muito triste saber disso. Pela minha experiência legal, a polícia tem, ou deveria ter, todo o conhecimento técnico para encontrar as pessoas que publicam fotos e vídeos íntimos não-autorizados. Acredito que, infelizmente, seja mais uma questão de quantos recursos eles querem usar – ou são investidos pelo-Estado – para investigar esses tipos de casos.

Qual é a consequência dessa violência online para as práticas democráticas?
O problema é que a violência nunca é apenas uma questão física. Ela também envolve os direitos humanos e a liberdade de expressão. As mulheres estão sendo aterrorizadas pelos homens para deslegitimar seus argumentos e opiniões. Opiniões importantes e necessárias estão sendo silenciadas pelo assédio e discriminação online. O resultado é um déficit democrático.

Quais são os principais problemas de gênero que você ainda identifica – tanto global quanto localmente?
A igualdade de gênero é um problema imenso para todas as sociedades e países ao redor do mundo. As mulheres, em geral, têm menor acesso à educação, ao trabalho, a um sistema de saúde decente, ao aborto livre, etc. Felizmente, a maioria dos países europeus avançaram bastante em muitas dessas desigualdades. Mas a violência contra as mulheres continua sendo o maior obstáculo para a igualdade de gênero, não importa quão rico ou pobre seja o país. É um problema de saúde pública, é um problema para a democracia e deve ser tratado seriamente como um crime.


A entrevista foi realizada por Bárbara Castro, socióloga e doutora em Ciências Sociais pela Unicamp e especialista em discussões sobre trabalho e gênero.

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.

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