Mulheres inspiradoras: Juliana Romano

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Eu sempre fui a gordinha da turma. Até quando era magra, sempre tive formas e, talvez por ser baixinha, sempre fui mais larga que as outras meninas. No balé, eu era a das coxas grossas. No vôlei, tinha braço grande. No colégio, era a “gorda, baleia, saco de areia”. Como toda criança crescendo, essas diferenças foram moldando minha personalidade. Eram olhares e palavras maldosas, cada uma a sua maneira, querendo dizer: você tem que ser magra. Crescer em um mundo onde as pessoas sempre esperam que você seja outra coisa que não você mesma é assustador. Felizmente, sempre tive apoio em casa e elogios nunca me faltaram para equilibrar o que eu não tinha fora. Em casa, eu cresci ouvindo que era mais importante ser boa do que ser bonita – mas que vaidade não matava ninguém. E isso me ajudou muito a criar uma barreira lógica contra críticas. Mas a adolescência chega para todo mundo e, com ela, uma vontade irrefreável de se encaixar, de “ser legal”.

Francamente, até a adolescência, ser a gorda nunca me pareceu ruim. E foi lá, aos 14 anos, quando comecei a tomar um remédio para espinhas, cheio de efeitos colaterais psicológicos, que me esqueci por algum tempo o que era importante de verdade. De repente, a vida só tinha sentido se eu fosse magra e nada mais importava – um sentimento semelhante, imagino, ao de quem tem anorexia e bulimia. Se eu fosse magra seria legal, seria desejável, seria popular, teria amigos, sairia para baladas, seria finalmente igual a todas as outras meninas. E foi assim que passei os 2 anos mais infelizes da minha vida. Anos aos quais eu não gostaria de voltar jamais.

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Fiquei magra, sim. Cheguei a vestir 36 – hoje visto 50. Mas passar todas as horas do dia tentando me transformar em uma coisa que eu não era me tornou uma pessoa tão amarga e tão fechada no meu próprio mundo, que nenhum dos benefícios de ser magra foi conquistado, a não ser o de entrar em uma calça menor. Depois de parar o remédio e me recuperar, me fortalecer psicológicamente, comecei a analisar a situação pela qual passei. Amigos de verdade só querem o seu bem, independente do número da sua calça. Relacionamentos não se sustentam pelas aparências – aliás, amor tem mais a ver com o que tem dentro do que o que tem por fora – e é muita futilidade acreditar que alguém deve te amar pela sua aparência. Enfim, o colégio acabou, entrei no cursinho e na faculdade e descobri a diversidade da vida. Sair da sua bolha, pode ser uma experiência maravilhosa. Fanáticos por religião, drogados, depressivos, hedonistas, indecisos, mau caráter… Cada um com uma personalidade e com um corpo diferente e ninguém, absolutamente ninguém, igual. Pensei “Graças a Deus, aqui sou normal”. Como não tinha um padrão, comecei a descobrir o que de verdade eu gostava. Estilo de música, roupas, hobbies, exercícios, livros, etc. Desenvolvi minha personalidade em cima de tudo que eu me sentia confortável e aprendi a dizer “eu gosto disso” ao mesmo tempo em que aprendi a respeitar quem não gostava e principalmente de quem gostava do que eu odiava.

Eu sempre amei moda e beleza e, desde que me dou por gente, leio revistas femininas. Por incrível que pareça, sempre entendi as modelos das revistas simplesmente como manequins, como cabides. Então, sempre achei que moda era para mim também, já que eu gostava e me sentia parte daquele mundo. A minha família também sempre teve uma veia fashion e um faro apurado para pechinchas – vou à 25 de março e ao Bom Retiro desde criança. Sempre me ensinaram a combinar as roupas, a discernir tecidos bons dos ruins, a saber o valor real de uma peça, etc. Quando cresci, para mim era uma conta lógica: preciso de uma roupa bonita e que caiba em mim. Não faço muitas reflexões em cima disso. Aprendi simplesmente a usar truques para adaptar as peças ao meu corpo gordinho. Sem ficar remoendo o fato de meu corpo ser gordo e, sim, me concentrando em como resolver as peças.

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Foi na faculdade, quando eu realmente aceitei e encarei minha personalidade, que comecei a me vestir com personalidade, com a minha personalidade. As pessoas começaram a elogiar minhas roupas e penteados e passaram a dividir suas dúvidas fashion comigo. Pensei: por que não fazer um blog para compartilhar os meus truques? Em momento nenhum eu pensei “blog plus size”. Ele começou como um blog para meninas fora do padrão, que precisavam se valer de pequenos truques para aprender a combinar e vestir moda. A denominação plus size veio só depois e veio das leitoras, não de mim. E foi tão natural, para mim, quebrar essas regras bobas tipo “gorda não pode usar branco” ou “gorda não deve usar listras horizontais”, simplesmente porque eu já usava e as pessoas já elogiavam. Não que eu precisasse dos elogios, mas concorda que se você usa uma coisa e as pessoas gostam, aquilo está bom em você não importa o que as regras digam? Adicione a isto o fato de que eu, Juliana Romano, tenho um seriíssimo problema com autoridades. Odeio que me digam o que fazer e como fazer. Me sinto um macaco de laboratório. Me dê uma limitação e eu lhe mostro como contorná-la. É isso. Eu gosto de criar possibilidades para situações impossíveis. Então se você me disser que gorda não fica bem com um tipo de roupa, eu fico absolutamente motivada a provar que eu sou gorda e que eu posso ficar bem com essa roupa, sim! E acho que foi essa rebeldia que transformou o blog no ”estopim”. As mulheres são tão reprimidas por tudo na vida, que precisavam de um grito de liberdade. Acho que eu consegui despertar uma força que toda mulher tem dentro de si, a vontade de ser livre sabe? De fazer o que bem entender?

Quando eu comecei, não tinha muita coisa sobre esse assunto. Hoje em dia tem um boom do plus size em todos os lugares. Pessoalmente, acho ótimo em partes. São tantos blogs gringos mostrando moda para pessoas fora dos padrões – não só gordas. Os blogs de beleza e as meninas que fazem, também não se encaixam nos padrões. Aliás, se tem uma coisa que já é democrática é a beleza. Todo mundo pode usar tudo! Acho maravilhoso. Algumas lojas, como a Flaminga, por exemplo, tem um quiz para você ver o estilo do seu corpo e um tabela que você preenche suas medidas, para ajudar na hora das compras a encontrar uma peça que vai cair bem no seu tipo de corpo. E não é você que tem que se encaixar na modelagem. As lojas de departamento também têm aumentado a grade de numeração das peças e criado coleções plus. Mas ainda tenho minhas dúvidas se segregar é evoluir. Eu não quero aplicativos, lojas, coleções e etc plus sizes. Eu quero que tudo seja mais abrangente. Eu quero uma grade de tamanhos maior, quero revistas com imagens corporais diferentes, quero que a atriz gorda da novela não faça o papel da gorda, mas que faça qualquer outro papel que exija uma boa atriz como ela. Eu gostaria que o termo plus size deixasse se existir. Aí então teríamos uma moda democrática. Uma sociedade democrática. Aí então, uma mulher que vista acima do 46 deixaria de ser diferente e seria simplesmente normal. Eu visto 50 e não sou mais especial que uma menina que veste 38 só porque sou gorda e como mais. Eu não preciso de uma coleção “especial”.

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Claro, toda evolução exige um processo de mudança e adaptação. Tenho notado um movimento vindo da gringa, de capas com mulheres mais “reais”. Com gordurinhas, barriguinha, flacidez, etc. Embora eu note que é tudo feito com muito medo ainda. Ninguém sabe bem o limite do ofensivo. Quando a gente pode chamar uma mulher de gorda? Quando ela é plus size? É superdifícil por enquanto. Explico: plus size é uma nomenclatura da moda, para classificar peças que estejam acima do 46. Consequentemente, qualquer mulher que use 46 ou mais é plus size. E isso independe de sua aparência ou do seu peso. Já achar que a palavra gorda é ofensiva, é puro preconceito. Se eu estiver falando de uma menina e for descrever sua aparência, vou dizer, por exemplo: “ah, ela é magra, alta, tem cabelos castanhos e pele morena”, certo? Então, porque eu não posso me descrever como “uma gorda, baixa, de cabelos longos castanhos e lisos, com a pele branca”. Por que a minha característica física é ofensiva? Tem todo um pensamento que nos é imposto desde a nossa infância, de que a mulher deve ser magra e por isso a palavra gorda virou ofensa. Mas na verdade é só uma característica e evitar falar a palavra “gorda” é preconceituoso. Já a palavra gordinha, é só um jeito de amenizar o choque que as pessoas levam com a palavra gorda. Eu não me sinto ofendida quando as pessoas me chamam de gordinha, da mesma forma que não me sinto quando me chamam de gorda ou de plus size. Mas que é um jeito de amenizar uma outra palavra que elas acreditam ser ofensiva e que isso carrega uma dose de preconceito, isso sim. Quer dizer, “olha, você está acima do peso, mas eu não te acho tão ruim para te chamar de gorda”. E, desculpa, mas eu não sou menos capaz que nenhuma mulher magra. Eu sou uma mulher inteligente, tenho amigos, um bom senso de humor, um coração mole, fiz faculdade, gosto de ler, gosto de filmes antigos, faço penteados… Eu tenho tantas outras características além do fato de ser gorda, que para mim é ofensivo ser resumida somente ao meu peso e minha aparência. O meu peso e minha aparência são tão pequenos perto da mulher que eu sou…

Peso, aliás, é algo que deixou de me incomodar há 6 ou 7 anos… Quando subi na balança pela última vez! Números podem ser cruéis com a nossa autoestima. Você olha no espelho e roupa está linda, mas aí você lembra seu peso e parece impossível se amar com todos aqueles números. Então hoje eu subo só na balança do médico, virada de costas e peço para que ele mantenha sigilo absoluto daquele valor. Que ele calcule a minha alimentação e o que eu devo fazer para manter minha saúde, mas que só mexa no peso caso seja absolutamente necessário. E para você ver como a mídia e as pessoas usam como desculpa a saúde para impor um padrão: eu visto 50, tenho dobrinhas na maior parte do corpo, peso sei lá quanto e minha endocrinologista (presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia, por sinal) diz que eu não preciso emagrecer nada se eu não quiser. Beijos, sociedade, sou gorda e saudável! Qual a desculpa para eu não poder usar o que eu quiser agora, mesmo?!


Juliana Romano, jornalista e autora do blog Entre Topetes e Vinis, desafiou as “regrinhas fashion” de consultoras, stylists e revistas de moda… E ganhou!

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.

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18 comments on “Mulheres inspiradoras: Juliana Romano

  1. Anne Py
    27 de novembro de 2013 at 11:49

    A Ju é uma linda mesmo! Além de trazer esse grito de liberdade pra tantas meninas, ainda faz tudo isso com uma simpatia gigantesca. Sabe aquilo de criança que diz ”quando eu crescer quero ser fulano”? Eu quero ser a Ju Romano! Como é inteligente essa menina!! *—*
    Parabéns!
    beeijos

  2. Janaina Benato Siqueira
    27 de novembro de 2013 at 11:53

    Olha Ju, conheci seu blog em 2013, este ano, e realmente eu me deparei com eu mesma! Eu já fui magra sim, uso 48 hoje e não tenho vergonha alguma de usar uma saia godê. A única coisa é que meus pezinhos não aceitam muito os saltos, então eu uso sapatilhas! Tenho peitão, uso 52 e nossa, como é difícil de achar lingerie! E quando acha os preços são absurdos!rs O que falta é um pouco de coragem da sociedade em acreditar no “plus size”. Parece que isso é significado de doença, e não! Tá ai você pra provar! Quilos a mais podem ser saudáveis sim. Parabéns pela iniciativa! O que importa é não ter medo de usar uma saia godê! rs Beijos!

  3. Eliane Pinheiro
    27 de novembro de 2013 at 11:55

    Disse tudo! sem palavras!…ainda não estou neste patamar, mas quero muito chegar lá!!…ótima matéria!

  4. Nayara Jacob
    27 de novembro de 2013 at 12:02

    Ju, que texto maravilhoso…sério… Não sei nem dizer quais foram as melhores partes, ele inteiro é maravilhoso e tenho certeza que tantas outras pessoas vão se identificar com ele, assim como eu… vou guardar pra sempre a frase… “O meu peso e minha aparência são tão pequenos perto da mulher que eu sou…”… Parabéns

  5. Rachel Pinto
    27 de novembro de 2013 at 12:57

    Muito bom!!!! excelente texto! Parabéns Ju!!!!!

  6. Raquel Moraes
    27 de novembro de 2013 at 12:58

    E é inspiradora mesmo, sua linda! :]

  7. Brunna Mancuso
    27 de novembro de 2013 at 13:50

    Chorei com seu depoimento. Era tudo o que eu precisava ler nesse momento. Obrigada, Juliana Romano.

  8. Giovanna Angelis
    27 de novembro de 2013 at 14:09

    Você é uma mulher incrível, obrigada por dedicar seu tempo a esse blog.

  9. Mariana Assis
    27 de novembro de 2013 at 14:48

    Essa Ju é a melhor sem dúvidas,é sempre libertador vê as entrevistas que ela dá porque sempre da um UP naquela auto estima que estava perdida por ai.
    Parabéns pela matéria,eu ameeeei *-*

    http://aosolhosdamari.blogspot.com.br/

  10. Poliana Blaya
    27 de novembro de 2013 at 15:34

    Nossa Senhora , como eu gosto de gente coerente ! rsrsrsrs Eu toenho 26 anos , uso 46 e nunca sai muito dessa linha ( minimo 42 e maximo 46 ) . e na verdade eu raramente tive algum problema com isso . Mas SEMPRE achei que a moda deveria ser mais democrática sabe , que vc deveria poder entrar numa loja e ter do 38 ao 56 do mesmo modelo , porque no fim a gte “carrega a roupa” com a atitude .
    Montei uma loja agora em outubro , aqui em sp na Rua augusta ( depois de uma mudança total e completa da minha vida ) e desde a concepção do contexto eu quis declarar que a MODA É PARA TODOS … embora eu tenha um foco em tamanhos grandes ( pela dificuldade obvia que enfrentamos de achar as coisas ) eu sonho mesmo com o dia que , com a minha confecção propria , eu possa ter roupas bonitas , a preço justos , para as MULHERES sejam elas…gordas , magras , e etc …. Pq não podemos cair numa de “preconceito as avessas” como se houvesse um jeito certo… parece que tb querem dizer o tempo inteiro que ser magra não é legal ! Ser Feliz é legal ! ser feliz com vc e com seu corpo é legal !

    P.s – ao contrario de vc , me vejo agora obrigada a emagrecer …. colesterol …gordura no figado e tudo o mais ….o vida tirana !!! rsrsrs

    Parabens , pela coerencia , e pela forma como retrata o assunto ! Muito me identifiquei !

    Bjo

    Poliana.

  11. FreakButterfly
    27 de novembro de 2013 at 15:35

    Parabéns, ela é inspiração pra muitas meninas, isso já é uma conquista, quebra de padrão, tabus.. Parabéns!

  12. Ellen Gentil Baldini
    27 de novembro de 2013 at 15:42

    Ju, sempre linda, feliz e inspiradora. Iluminou um pedacinho de auto estima e esperança em cada leitora ou visitante do seu blog… Obrigada por nos guiar!

  13. Nathalya Santos
    27 de novembro de 2013 at 17:14

    A Ju é maravilhosa! sou fã dela e ela é mais que uma inspiração pra mim. Depois que eu comecei a acompanhar o blog e ler os textos dela sobre auto aceitação, comecei a me enxergar de outra forma e aprendi a me amar mais.

  14. Andressa Collodetti Duarte
    27 de novembro de 2013 at 22:56

    Exelente, se tivesse falando a uma platéia acredito que seria aplaudida de pé.
    As pessoas tem para de botar rótulos.
    Parabéns!

    Andressa
    http://mamaegeek.blogspot.com.br/

  15. Jessica Baah
    27 de novembro de 2013 at 23:29

    Palmas! Aplausos de pé! Bravo Ju! Bravo! o//
    Esse post ficou perfeito, resumiu tudo! Explicou tudo!
    Deveria ser lido em rede nacional (q nem as cronicas do Bial)
    Como eu percebi tantos pensamentos preconceituosos contra eu mesma!
    Como esse post mexeu nas minhas feridas! Assim como eu, falta muita gente (gordinhos, magrinhos) cair na real e começar a aceitar as coisas do jeito que elas são!
    Linda composição! Parabéns mesmo!

  16. Pedro Nobre
    28 de novembro de 2013 at 05:54

    perfeita <3 sou teu fã

  17. Nina Vieira, Livreira
    28 de novembro de 2013 at 19:07

    Eu sou beeeem o contrário da Juliana: sempre fui magérrima. Um palito de fósforo, um macarrão em pé. Mas também, ao meu modo, sofri com isso. Me identifiquei muito com esse texto porque, na adolescência, eu teimava em querer engordar. Ia ao nutricionista e nada resolvia. Enquanto a Juliana se sentia mal por querer ser magra, eu passava mal quando me chamavam de aidética. Sim, chamavam.
    Descobri esse ano que sou anoréxica. tenho anorexia não-nervosa. Estou me cuidando e tento modificar todos os dias a minha péssima alimentação. Hoje, não penso em ser gorda ou magra. Nem a minha nutricionista me coloca pressão nisso. Quero ser saudável. E espero conseguir.
    Um beijo grande!

  18. Chloe Morets
    10 de dezembro de 2013 at 14:23

    Coisa mais linda esse blog

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