Clube da Lulu e a objetificação masculina

olga lulu

Ontem, na mesa do bar, no meio de um papo sobre o Tinder, alguém apresentou o Lulu às mulheres da mesa, o aplicativo que permite que mulheres façam avaliações anônimas de homens – qualquer homem, desde que ele esteja no Facebook, e sem que ele sequer saiba disso – usando hashtags engraçadinhas pra caracterizar defeitos e qualidades e se classificando como amiga, namorada, “já fiquei”, “quero ficar”, entre outros status.

Em resumo, é um app de objetificação do homem pela mulher, o que provocou na minha cabeça uma daquelas discussões que a gente tem consigo mesma (espero que isso aconteça com vocês também), quando é impossível concordar consigo mesma porque você sempre ter argumentos melhores que… você mesma? Bom, tá aqui meu diálogo comigo mesma:

Eu: “O app empodera. Me fez experimentar algo que eu não me lembro de ter sentido antes, um poder curioso, uma sensação de ‘topo de cadeia alimentar’ que era inédita – eu avaliando homens com critérios rasos, rótulos limitantes, colocando eles dentro de etiquetas de maneira superficial só pela piada não é algo que eu tô acostumada a fazer, mas eu me senti relativamente bem fazendo isso.”

Eu também: “É engraçado! É uma brincadeira, né? Não passa de uma brincadeira. Não pode ser levado a sério, nem por mulheres que avaliam homens, nem por homens avaliados.”

Eu, de novo: “Não, péra, é babaca. Isso é babaca. Feministas estariam queimando a Bastilha se isso fosse com mulheres.”

Eu: “Não, péra. É um pouco babaca, mas ainda é uma piada engraçada porque não é sistemática. Se fosse, como é com as mulheres – que são objetificadas o tempo todo, sistematicamente, desde sempre – aí seria uma piada de mau gosto. O peso é outro, é mais leve, porque é só um mecanismo que tenta fazer mulheres conquistarem o que homens já têm: o privilégio de avaliar, rotular, limitar, objetificar mulheres.”

Eu, de novo: “Não, péra de novo. A piada só é engraçada porque não é com você. Um erro não pode justificar o outro!”

Eu também: “Mas não é bom fazer os homens se sentirem por um dia na pele das mulheres? Será que isso não pode fazê-los refletir sobre defender coisas tipo o assédio e a objetificação, porque eles vão sentir na pele?”

E assim eu fiquei, infinitamente. Aliás, diria que ainda estou.

É ingênuo, até meio burro, ignorar o significado do surgimento de um app como esse agora. É um sinal do zeitgeist, de maneira geral. Um aplicativo que coloca, por um dia, o homem no lugar da mulher, só poderia surgir em um momento de profunda discussão dos papéis de gênero e da opressão que os dois gêneros sofrem por conta do machismo enraigado.

Isso não significa que todo revanchismo seja válido. Fazer com que os homens sintam na pele quão doloroso e humilhante é ter alguém, em público, dando uma opinião sobre você que você não pediu, pode de fato fazer com que eles se questionem sobre o assédio e a opressão que, de maneira automática, exercem diariamente sobre as moças, ou só vai fazer todo mundo achar que isso é um caso de NÓS contra ELES?

Nos espaços de discussão nas redes sociais, mulheres berram CALMA, CARAS, VOCÊS ESTÃO LEVANDO ISSO MUITO A SÉRIO, É SÓ UMA BRINCADEIRA!, enquanto homens bradam QUE NOJO, ISSO É UM ABSURDO, SOU MUITO MAIS DO QUE UMA DÚZIA DE HASHTAGS DÃO CONTA, ISSO É OBJETIFICAÇÃO!

Acho que você já leu isso antes, né, mas os papéis costumam ser meio invertidos.

A pergunta final, essa pra todo mundo, faz refletir sobre o mundo em que nós queremos viver no futuro: você quer um feminismo que quer que a mulher tenha todos os direitos do homem, tipo objetificar e assediar caras na rua (ou seja: ser babaca!), ou você quer um que acabe com qualquer objetificação e assédio?

Pessoalmente, eu prefiro o segundo.

E, por fim, aos homens que estão se sentindo indignados de serem expostos, qualidades e defeitos, por mulheres que ele não faz ideia de quem sejam…:

HOW DOES IT FEEL NOW, HUH? Ruim, né? Exatamente.


Ana Freitas é jornalista. Escreve pra revista Galileu, é dona do Olhômetro e usa o Facebook para fazer pesquisas informais sobre sexualidade feminina, postar fotos de papagaios que usam moletom, entre outras coisas.

61 Responses to “Clube da Lulu e a objetificação masculina”

  1. Cristia Lima

    Infelizmente estamos, ainda, em um estágio bem primitivo da consciência humana, apesar de já alcançarmos conhecimentos cientìficos inimagináveis. Vejo essa necessidade vingativa (de ambos os lados) como o reflexo da nossa ignorância, que continua a usar instrumentos degradantes para demonstrar poder uns sobre os outros independentemente de cor, credo, sexo ou nível de escolaridade. Só me pergunto de que adianta conquistar o espaço se não conseguimos ainda controlar nossos maus sentimentos e maus exemplos. Resumindo, continuamos a ser objeto mal acabado de nós mesmos e me parece que a estrada ainda será longa para conseguirmos que os seres humanos simplesmente se respeitem em toda a sua complexa gama de diferenças. #raçahumanaemconstrução.

  2. Andressa Almeida

    Oi, li alguns comentários e achei lamentável, com tantos problemas que o nosso país tem e com tantas coisas que conquistamos, agora estamos perdendo a razão com essas coisas fúteis, desculpem-me as mulheres que acreditam que falando mal dos homens vão mudar a historia ou sentir-se vingadas, machismo, qual o significado dessa palavra, hoje estamos fazendo o mesmo com eles. Não sou a favor dos homens, mas estou sendo RACIONAL.

  3. Walber Galletto

    Eu concordo parcialmente. Pois, não são todos os homens que tratam a mulher da maneira como é descrita no texto. E, mesmo que a mulher se incomode em ser olhada ou assediada (e elas só não gostam quando o cara é feio ou pobre), ela pelo menos tem ciência do que ocorre, e pode pensar no que fazer a respeito. Por outro lado, o tal Lulu é uma invasão de privacidade, o homem pode ter sua imagem estragada perante centenas (talvez milhares) de mulheres sem nem ter noção disso. Aposto que se houvesse um aplicativo em que homens trocam hashtags do tipo: #gozeinacara, ou #adoradarocu, já haveriam protestos e mais protestos, e o criador poderia até ser preso. Se no passado as mulheres eram oprimidas, não é culpa minha e nem de nenhum outro homem em especial, assim sendo, nenhum de nós deve ser punido por conta disso!

  4. Ingrid Renata

    Acho q o negócio é o seguinte, as mulheres abordam tanto o fato de direitos iguais que a hora que criarem um aplicativo para homens ficarem falando das mulheres sobre o seu desempenho sexual e suas intimidades, expondo a todos os homens o que fizeram ou deixaram de fazer com a fulana, siclana e beltrana, ai sim eu quero ver mulheres fazendo comentários infelizes e achando gracinha por estar queimando um homem para as amigas e demais conhecidas, pimenta no cú dos outros é refresco! depois não reclamem … minha opinião foi dada!! ;)

  5. Thiago Péres Syaoran

    OBRIGADO!!! Você é uma linda: opinião perfeita e com certeza me representa.

    É exatamente assim que eu vejo a questão toda: vamos nos nivelar por baixo usando revanchismo contra os chauvinistas ou vamos tentar lutar contra o sistema patriarcal sem nos render ao empoderamento de um app de smartphone?

  6. Willian Oliveira

    Que deprimente, essa vagabunda hipócrita criadora desse aplicativo acha que foi uma ideia inovadora mas em 2003, na Universidade de Harvard, Mark Zuckerberg teve a ideia de criar um website para medir a beleza das estudantes de Harvard após sua namorada Erica Albright terminar com ele. Mark invade as bases de dados de vários alojamentos, baixa as fotos e o nome das estudantes e, em algumas horas, usando um algoritmo dado por seu melhor amigo Eduardo Saverin, ele cria o “FaceMash”, onde os estudantes homens escolhem quais das duas estudantes apresentadas são mais atraentes.

    Mark é punido com seis meses de suspensão depois que as visitas do site fazem os servidores de Harvard cairem. Ele se torna uma espécie de “vilão” para a comunidade feminina de universidade. Depois ele criou o Facebook. Agora depois de dez anos uma mulher de meia idade teve essa ideia genial? kkkkkkkk Digna de pena. E é o aplicativo mais acessado pelas brasileiras, hein? Olha só a hipocrisia minha gente.

    • Olga

      Caro Willian,

      Começo essa resposta pedindo desculpas aos outros leitores do blog: nunca aprovo comentários rasos e trolladores por aqui, pois acho que, além de irrelevantes, perdemos muito tempo nos sentindo enojados e na obrigação de responder a palavras tão ignorantes. Mas precisei aprovar o seu, Willian. Precisava apontar para ti que argumentação não se faz com cópia de textos do Wikipedia. Sim, Willian, eu estou vendo o que você está fazendo. Vi esse seu texto sendo divulgado aos quatro ventos da internet. Enxerguei seu ctrl C e crtl V. Uma ironia muito grande para quem está criticando a inovação da criadora do Lulu.

      Outra coisa: não é porque você ficou a par da história do Zuckerberg pela versão for dummies que tem a abertura para falar sobre isso com toda essa pompa. Não. Volte três casas, amigão. Ou melhor, saia do jogo.

      Não venha derramar em nós seus preconceitos, suas informações distorcidas (Alexandra Chong tem 30 anos. Isso é meia idade? Lulu está longe de ser o app mais acessado pelas brasileiras. Olha só a mentirinha, minha gente). E, para terminar, não chame as mulheres de vagabundas. É exatamente por isso que você está com a nota 1,2 no Lulu, seguido pela hashtag #misógino.

      Em frente.

  7. Jorge Alexandre Prussik

    Pronto, já surgiu a resposta óbvia, o Tubby, o aplicativo para os homens classificarem as mulheres. Como toda violência, o Lulu gerou violência em resposta. E o Lulu é violento, sim. Ele cria um perfil do usuário sem que ele saiba e nem mesmo permite que ele o visualize. Ele ridiculariza o usuário que quer excluir o perfil. O pior: ele permite comentários anônimos.
    Esse é o principal problema desses apps (Lulu e Tubby). Não é machismo, feminismo, colocar os homens nos lugar das mulheres ou coisa assim. Essas são questões seculares. A questão, nesse caso, é um problema extremamente moderno que estamos enfrentando: o quando homens e mulheres podem ser cruéis quando lhes é permitido expressar-se de forma anônima. E não me digam que é uma brincadeira inocente. Para algum homem tímido, com problemas de ereção, tamanho do pênis ou mesmo desenvoltura sexual, que for empurrado mais para dentro de sua concha quando descobrir o que está exposto sobre ele, para que qualquer um veja, não será uma brincadeira.
    E sobre baboseiras do tipo: “quem tem medo do Lulu é porque não manda bem”, que se manifeste a mulher que nunca viu uma outra denegrindo um ex com mentiras por puro recalque.
    O Lulu foi criado por mulheres que queriam guerra. Em poucos dias, elas conseguiram, com a criação de um app que promete ser tão ou mais grosseiro. Antes de declarar guerra, lembre-se sempre que morre gente dos dois lados.

  8. Francis (@francisgirard)

    Um bom texto. Concordo com a necessidade de muitos homens mudarem suas posturas e abordagens em frente a mulheres, e de que é bom que homens se sintam do outro lado da mesa. Mas não concordo que o Lulu seja um caminho eficaz, ou ao menos viável para essas mudanças de atitudes.
    Primeiro, porque eu acho que a maioria dos homens que deveriam mudar, não vão ta nem ai pra esse Lulu.
    Segundo, acho esse app bem fútil e virtuoso para ser bem sincero. Aquem da realidade, apenas uma simulação ironica de figuras projetadas por anseios e julgamentos.
    Se fosse pra valer mesmo não teria o anonimato. Pq se for fofoca por fofoca, te garanto que o Lulu não é a primeira plataforma pra isso, e também posso garantir que nunca foi um “privilégio” apenas masculino.
    Independente de genero, muita gente gosta de da pitaco na vida alheia, fazer oq. E na minha opinião, acho que tanto o Lulu ou o Tinder sao apps para um publico que vai saber usufruir dele o que ele tem a oferecer.
    Gostei do seu texto e da sua conclusão, mas o que me deixa preucupado as vezes é saber que muitos dos que deveriam ler esses texto aposto que não passam nem perto de ler, e muito menos de compreende-lo.

  9. Leonardo Calsavara

    Não é tão comum ver uma mulher gritando pra um cara desconhecido na rua: Ô lá em casa, ou coisas desse tipo, mas isso não significa que vocês não avaliem objetificando homens… Vocês fazem isso o tempo todo em roda de amigas, e não tem o menor problema nisso. O problema surge quando você deixa uma pessoa (sem distinguir gênero) vulnerável ao ataque de pessoas anônimas, sem que essa pessoa tenha pedido pra participar da brincadeira. Concordem as Feminazis, ou não, existem leis contra isso.

  10. Carla Gunter

    texto extremamente babaca e incoerente, até pq essa suposta objetificação que as mulheres se sentem vitimas é muito menor se comparado com a conversa q as mulheres tem entre elas sobre os homens, pra mim lulu é exatamente o REVENGE PORN e não iguala conversa q os homens tem na mesa do bar, até pq a conversa que as mulheres tem na mesa do bar é muito pior e muito mais detalhada que a dos homens.

    • Amanda Paesler

      Não sei bem em que mundo vc vive e me surpreende uma mulher pensar assim, me pergunto quantos homens já te assediaram na rua, quantas pessoas já te subjugaram em um emprego por vc ser mulher ou em alguma função de força e/ou esporte, ou se já te julgaram pela roupa que vc escolheu, pela bebida que vc bebeu, pelo cara que vc deu, e te colocaram adjetivos que não são intitulados a homens de maneira tão degradante quanto a mulher. Enfim, é aquela história que algumas mulheres falam “Não, eu sou feliz, meu marido não em bate mais que o necessário!”. O opressor não seria tão forte se não houvesse cúmplices entre os próprios oprimidos.

  11. João Gabriel Silva (@joaogabrieeeel)

    achei genial o aplicativo, uma puta piada bem sacada.
    podemos fazer mil e um pensamentos baseados nele, mas que é legal é. é fazer piada com a agressor, e isto nunca pode ser esquecido.

    e o cara que se incomoda com isso é um puta hipócrita.

  12. Gabriel (@apenasbatata)

    Parabéns pelas palavras… Espero que esta sociedade entenda que pessoas estão matando e morrendo por pequenas coisas… Homens e mulheres… “mas é só uma foto, só uma brincadeira, só um vídeo…” Vamos refletir!

    • Camila Pereira

      Então, amigo, se você reparar a estrutura do post, vai ver que ela mesma se criticou/se censurou após tal pensamento passar pela cabeça dela ;) Não foque numa mera frase! Ao final ela conclui que prefere uma sociedade em que ninguém, nem homem nem mulher, tenha esse “privilégio”.

  13. Melissa de Miranda

    AMEI. Eu sou toda louca e tenho esses conflitos internos constantes. Estava falando hoje sobre o cansaço de se confrontar com a estupidez e ignorância de uns (no sentido agressivo, babaca) e então no segundo seuinte pensar nos contextos de vida da pessoa e da sociedade e perdoá-la (o ser humano não é ruim por natureza, digamos) e sentir empatia, mas logo em seguida contestar o contexto atual e ficar nessa conversa louca e desgastante! Faço isso o tempo todo. E faço isso com questões que surgem durante o ativismo feminista, igualzinha a você, então me diverti lendo! É assim mesmo, rs. <3

    Eu acho que o ponto é realmente a invasão, o desrespeito. Por exemplo, quando queremos levar uma cantada? Quando trocamos olhares, quando há intenção mútua (ainda que sub-entendida), quanto tem abertura. Não de um completo estranho que você sequer notou ali antes de ouvir um "se eu te pego…". Não se uma pessoa com quem você não tem nada a ver, não tem interesse algum, não sabe quem é, não está atraída, nada! Não numa enxurrada de comentários desrespeitosos (e aleatórios) de caras no seu Facebook. O problema não estar em ser objeto de desejo, está em ser objeto. A rua é um lugar de locomoção. Nas baladas, por exemplo, estamos (presumidamente) reunidas com pessoas que têm os mesmos interesses ou, enfim, é outro clima. E ainda assim essa abertura deve ser respeitada. O convite visual. O "não" deve ser respeitado. Isso para mim é cantada boa! Quando rola alguma simbiose ou abertura (mesmo corporal e sutil) antes!

    Agora, qual é a questão com o aplicativo? Pelo que eu entendi, não são apenas mulheres comentando sobre um cara que acham gatíssimo, não são amigas trocando confidências numa mesa de bar. Tem foto. Tem nome. Tem informações pessoais. É acessível a outras pessoas. O que EU considero invasivo à integridade do outro. Eu não usaria o Lulu, não vejo muita graça em me divertir às custas da exposição dos outros. Você falar uma coisa numa conversa informal é diferende de você deixar isso registrado na internet. Não acho que feminismo se reduza a vingar o que sofremos como gênero, a fazer igual ou pior para "eles verem como se sentem". Eu acho que lutar contra um sistema não signifca colocar todos os homens no mesmo saco e individualmente atacá-los na mesma moeda. Acho que nossas ações e culpabilizações devem ser pontuais e proporcionais, direcionadas; enquanto, claro, lutamos ideologicamente (de forma ampla) contra o patriarcado e o machismo. Para mim, esse é o caminho. =)

    Mas, de toda forma, não acho que seja lá um aplicativo muito aclamado por feministas (que tendem a ser seres empáticos, não?) <3 Ou é/foi? Não vi nenhuma "companheira" de causa na minha timeline se entretendo com isso. Sei lá! Mas adorei a sua publicação e a forma como questionou ao final sobre a posição que devemos tomar no feminismo. Parabéns!

  14. Amanda Marsula

    Lulu e o sexismo que (muitos) preferimos ignorar.

    Como toda boa pessoa que gosta de novos aplicativos e está sempre em busca de coisas novas para entupir o iPhone, trombei com o “On Lulu”, aplicativo disponível apenas para o público feminino com smartphones que sejam Android ou iOS. Já tinha ouvido algo aqui e ali, um comentário engraçadinho entre amigas sobre uma “nova ajudinha” para, no termo mais vergonhoso possível, “caçar macho”, uma reclamação de um amigo meu, “você viu aquele app novo? Que tá causando polêmicas?”.
    Então que o tal app me deixou curiosa e vamos lá baixar. E como todo aplicativo, para se entender, precisamos fuçar nele. Lulu me saudou com fotos de moças sorridentes e um pedido para sincronizar minha conta de facebook ao aplicativo para começar a brincadeira – Não se preocupe! Tudo no anonimato, não postarão nada no meu mural!
    A classificação é, em primeira vista, muito simples. A nota dada ao rapaz é calculada através de uma série de perguntas e você ainda pode colocar hashtags falando sobre as características do tal avaliado. Ah, novamente, não se preocupe! É anônimo! Ele não saberá que foi você, e nem as outras.
    Não é no funcionamento do aplicativo que quero me aprofundar, para isso deixo o texto da Juliana Moura Bueno, http://mariafro.com/2013/11/22/41305/, que fez uma pesquisa muito mais completa do que a minha e descreveu com louvor o funcionamento do “On Lulu”.

    O que quero falar é sobre o sexismo presente em tal aplicativo e o quão baixa essa brincadeira é.

    “Sexismo”? Brincadeira baixa? Amanda… É só um aplicativo inocente!

    Não, meus caros e minhas caras. É rosa e bonitinho, mas não é inocente.
    Avaliar e encher uma página de hashtags abrindo sua intimidade com um certo homem é tão ofensivo quanto um homem cortar vantagem com os amigos sobre as performances sexuais na noite anterior. É o que fazem conosco, mulheres, só que numa rede social exclusiva. É como os boatos daquela que “já rodou mais que pneu de caminhão”, ou daquela que tem os seios meio caídos, ou daquela que ronca, ou daquela que pediu para ser amarrada uma vez, ou daqueles tantos outros casos que já passaram por aí e chegaram aos nossos ouvidos. O aplicativo Lulu, para mim, nada mais é do que um tolo revanchismo do papo de bar masculino. A diferença é que na mesa de bar se vê e se ouve da boca de quem fez, sabemos seu rosto e seu nome… No Lulu, há a reafirmação constante de um anonimato que, talvez, não seja assim tão necessário.
    A brincadeira é, em primeiro lugar, infantil. Muito infantil. Você abre suas intimidades com um antigo parceiro, deixando tabeladas e comentadas todas as satisfações e insatisfações do relacionamento de vocês. É uma extrema falta de respeito com o rapaz que é alvo destas brincadeiras. Vocês tinham um contrato e ao postar online e às vistas de toda e qualquer mulher que estiver com o aplicativo no celular, você quebra esse contrato e essa confiança que você tinha com o seu antigo parceiro. E além do mais, ele não ficará sabendo. Só se alguma amiga o avisar.
    Em segundo, é perigoso, pois as avaliações são feitas em anonimato. O anonimato traz uma sensação de poder para aquele que clica fervorosamente nas hashtags sem pensar no que pode causar. Nada que é avaliado anonimamente deveria ser levado à sério, principalmente quando falamos de relações afetivas. Especialmente quando falamos de relações afetivas. Como você sabe se aquela avaliação é real? Se não é má-fé? Prove-me.
    Em terceiro, é uma prática ridícula de sexismo.
    Sexismo? Sim, sexismo! Por definição, “formas de comportamento e ideologias nas quais são atribuídas determinadas disposições e capacidades a indivíduos ou grupos simplesmente por causa do sexo a que pertencem”. Como feminista, com uma luta diária pelos direitos igualitários entre ambos os gêneros, tal aplicativo e comportamento é uma ofensa.
    O sexismo velado, fantasiado de brincadeira inocente, ronda a nossa sociedade machista. O assovio, a brincadeirinha na rua, o puxão pelo braço numa balada, as cantadas que não são bem-vindas, as conversas de bar que falam a respeito de nossa intimidade… O que o aplicativo Lulu faz nada mais é do que uma objetificação masculina, baseada em comentários e notas anônimas femininas, e para mim isto é tão grave e tão invasor quanto um papo de bar.
    É um comportamentozinho deplorável de gente que não tem mais o que fazer além de dar nota para o corpo alheio. E que decepção! Ah, muita decepção! Muitas que se falam feministas e que bradam os cantos de “vadias com orgulho”, adoram endeusar tais comportamentos tipicamente machistas às avessas, como num dia dos tolos, como num discurso dos contras. De nada vale ser feminista, de lutar por direitos, se na hora de pagar a conta do restaurante, você torce o nariz quando ele quer dividir. De nada adianta ser feminista e querer uma sociedade mais justa se você gosta de falar frases do tipo “homem bom é homem na coleira”, ou acha divertido objetificar uma antiga relação baseada em hashtags como “#RespondeSMSRápido” “#LindoTesãoBonitoeGostosão”. De nada adianta ser feminista se os seus comportamentos comprometem seus discursos. É uma visão sexista. É uma visão não-igualitária.
    E se um aplicativo similar for lançado para avaliar as mulheres? Seria válido? Seria tão justo e tão “divertido” quanto o tal Lulu? Se tal aplicativo fosse lançado, seria uma ofensa extrema a todos e todas e daria manchete e passeata e mais aquela coisa toda. E com motivo. Claro, é a nossa luta. É a nossa bandeira. Queremos um mundo menos sexista, e aplicativos tão baixos quanto o Lulu não nos garantirão nenhuma conquista.

    Não estou colocando aqui um texto sobre “ah, coitadinho deles”, “ah, vamos defender os nossos menininhos” ou algo do tipo, não é um texto para ofender as mulheres que utilizam tal aplicativo, para culpá-las de tal entretenimento. Não, esse é um texto de repúdio ao sexismo presente no aplicativo Lulu e como ele me faz sentir.
    Gostaria que refletissem melhor sobre os rumos que tais “brincadeiras” podem levar. Não se enganem, moças… Sim, levanto a bandeira do poder feminino, mas o poder feminino não quer dizer submissão masculina. Não sejam tolas, não invertam os papéis, não façam como eles.

    • Cleber Aurélio

      Gostei da sua análise, parabéns, uma das mais sensatas que já li aqui. Um ponto importante é que, na “mesa de bar”, o que se fala ali não fica gravado pra todo mundo ver depois. Na internet, fica tudo lá, junto com a foto e o nome da pessoa, qualquer um pode ver. Só discordei da última frase, “não façam como eles”, pois parece que comentar detalhes íntimos ou objetificar são atitudes unilaterais (homens –> mulheres), quando na verdade mulheres também falam dos homens com quem saíram (disso eu sei…) :/ Não vejo o Lulu como uma “revanche”, e sim como uma forma extrema de objetificação que é feita tanto por homens quanto por mulheres…

    • Amanda Paesler

      A grande questão em debate não é apenas o quão idiota é o aplicativo por degradar a figura do homem, é que rola total moralismo quando se volta ao homem coisas que são atribuídas diariamente a mulher. É certo? Não. Mas é um tapa na cara de uma sociedade machista, e acho que o lulu, algo que surgiu a um mês (?) só deve ser debatido e solucionado após alguns problemas sexistas que estão na fila fazem algumas décadas e séculos, e até milênios sobre questões de maus tratos e violência (verbal, física, moral, psicológica, social) a mulher. Mas isso pouquíssimos homens querem debater, compreender e modificar.

      • Amanda Marsula

        Amanda, concordo com todas as suas palavras. Mas não vejo como é que se combate sexismo com mais sexismo.
        O Lulu é um aplicativo estúpido e de baixo alcance, apenas aqueles com um poder aquisitivo médio e conhecimento mediano tecnológico conseguem utilizá-lo, então não o vejo como uma ferramenta de “empoderamento feminino”, muito pelo contrário. Além de tudo aquilo que escrevi no comentário acima, o considero heteronormativo – por excluir completamente a existência de uma comunidade homossexual E bissexual dentro das redes sociais – e pouco contributiva para as lutas em busca de igualdade entre gêneros.

        Não se combate violência contra a mulher com aplicativos que ~superficialmente~ as “empoderam”, combate-se violência contra a mulher com conhecimento, com debates, com a figura feminina verdadeira presente nas mídias e no dia a dia daquelas que ainda não conseguiram construir sua própria luta por “n” motivos.
        Para mim não é uma questão de moral, para mim é uma questão de sexismo. É, por definição normativa, um aplicativo sexista. A mentalidade sexista, que empodera um sexo e excluí o outro, ao meu ver, deve ser combatida. Por isso que torno a discussão a cerca do Lulu em cima desta questão.

        Sobre o moralismo – ao meu ver, o sexo feminino é sempre reprimido quanto a sua sexualidade e liberdade sexual. A mulher não pode falar livremente e feliz sobre suas experiências, por isso uma das grandes propagandas do aplicativo é o tal do anonimato. “Hey, você deu para ele a noite toda, usou e abusou… Avalie-o! E olha que bacana, você não precisa se mostrar, vai ser anônima, logo, ninguém vai te chamar de vagabunda!”.
        Esse aplicativo não quebra as morais e os bons costumes das moças, ele é discreto… “Assim como uma dama deve ser”.

        Enfim, fica a minha reflexão. Obrigada por compartilhar a sua :)

  15. Hideo Chinen Junior

    Mulheres não falam muito mais do que os homens sobre a intimidade alheia? Pergunto com base na minha experiência de vida.

    Se a humilhação contra os homens não fosse sistêmica, ela teria sentido?

    Eu sou homem e ainda não entendi exatamente o que é esse privilégio de rotular os outros.

    Você sai de uma prerrogativa pós-moderna de que tudo o que existe no universo são sentimentos. Entretanto, sem saber o que a mulher passa eu não posso tomar partido por ela, independente do que eu sinta.

    Será que homens que não estão preocupados com a igualdade vão dar a mínima para isso? No final não são só homens feministas que vão se dar mal? Não seria melhor tentar convencer as pessoas de quão boa a igualdade é, ao invés de tentar fazer a mulher se sentir como homem? – pelo menos é o que eu captei do seu discurso sobre empoderamento.

    • Amanda Paesler

      A grande questão em debate não é apenas o quão idiota é o aplicativo por degradar a figura do homem, é que rola total moralismo quando se volta ao homem coisas que são atribuídas diariamente a mulher. É certo? Não. Mas é um tapa na cara de uma sociedade machista, e acho que o lulu, algo que surgiu a um mês (?) só deve ser debatido e solucionado após alguns problemas sexistas que estão na fila fazem algumas décadas e séculos, e até milênios sobre questões de maus tratos e violência (verbal, física, moral, psicológica, social) a mulher. Mas isso pouquíssimos homens querem debater, compreender e modificar.

  16. Rita Squillace

    muito boas suas reflexões! ao meu ver, revanchismo só faz a gente assumir o papel de quem nos oprime, ou seja, é um retrocesso burro! pânico na tv, por exemplo, usa do humor, da ausência de seriedade, da brincadeira e da zoação e, no entanto, “sem querer”, ofende, agride, propaga desrespeito, preconceito, discriminação… enfim, há meios muito mais saudáveis de fazer os homens perceberem atitudes que não são legais. respeitemos pra sermos respeitadas, não é!? :) obrigada pelo texto e pelo espaço! beijos

  17. iarachaves

    Não achei a melhor das ideias e até concordo com o fato de que não se pode combater machismo com esse feminismo às avessas. Mas não consigo achar péssimo. Que nem o Adote um Cara. Antes a objetificação mútua do que unilateral, somente por parte dos homens para as mulheres. Não é nem payback time, é mais um equal time e eu não consigo ficar triste por isso.

  18. Tayná Coelho

    Eu falei disso hoje no Facebook. Num primeiro momento até achei engraçado, mas eu não ficaria nada feliz se fosse comigo. Então, é babaca. É mais babaca ainda porque não permite que os homens decidam se querem ou não participar dessa “avaliação”. Se eles escolhessem participar, o assunto era outro, mas não é isso que acontece. E as hashtags? #CaideBoca #MãosMágicas #FilhinhodaMamãe… sério isso? Será que gostaríamos de ser classificadas como #TemCelulite #BundaGrande #NaPortadaFrenteeNaPortadeTrás #UsaEnchimento #Chorona? Claro que não. Feministas lutam há anos para que esse tipo de coisa não aconteça e cá estamos nós, repetindo erros dos homens. Todos somos muito mais que isso.

  19. Sadat Oliveira

    Acho que esse assunto envolve não só o sexismo, mas também a exposição e ridicularização de qualquer pessoa. O fato de alguém participar de uma rede social, como o Facebook, não significa que concorde em ser exposto a brincadeiras ou até mesmo algum tipo direto ou indireto de exposição da privacidade. Isto vale também pra outros sites como os que expõem fotos das pessoas, sem autorização, pra debochar da aparência, do peso, da roupa, do cabelo, da cor da pele, etc. “Avaliar” pessoas já é uma prática bizarra e até de desrespeito e objetificação. Bom, o site pelo menos oferece um meio de tirar o perfil do banco de dados caso não queiram participar da brincadeira, o que já é um bônus. Mas também é bom refletir sobre implicações mais profundas por traz da brincadeira, coisa que o post deste blog fez muito bem!

  20. Cristiano Baldi

    o que nós somos além de nossos sinais exteriores, das coisas que fizemos, que temos e do nosso corpo? não existe a “essência do ser”, o “o que sou de verdade”. não vão conseguir varrer toda biologia para baixo do tapete. lamento.

  21. Arthur Paulo Sato

    A diferença de opiniões só nestes poucos comentários é ilustrativa.

    O simples conceito “mulheres dando suas opiniões sobre mim” não me incomoda nenhum pouco, mesmo que essas opiniões sejam apenas sobre valores estéticos ou sexuais, e mesmo que muitas delas sejam negativas (até porque não existe um direito de ser bem qualificado na opinião pessoal dos outros). Faz parte de viver em sociedade falar sobre pessoas, bem ou mal, e sobre vários aspectos dela. Não acho que falar das características estéticas ou sexuais de alguém seja necessariamente uma objetificação.

    Mas eu posso ficar incomodado dependendo da, digamos, “forma de execução” daquele conceito: não acho que tem algo de errado em sair com seus amigos e acabar falando sobre como x pessoa transa muito bem ou é uma pessoa muito bonita, mas vou ficar incomodado numa situação em que isso é divulgado de forma massificada e, sobretudo, se essa informação se torna tão disseminada a ponto de trazer dificuldades para a vida da pessoa. Não sei como funciona esse Lulu, pelo texto não deu pra entender se essas informações são amplamente divulgadas e outros detalhes do aplicativo.

    A princípio, eu não me sinto nenhum pouco incomodado de poder estar sendo avaliado no Lulu, desde que isto seja uma diversão de um grupo de pessoas singela o suficiente pra não extravasar para outras esferas da minha vida a ponto de causar danos pessoais.

  22. Thais Lima

    Uma das coisas que pensei ao ler o texto é: porque nos preocupamos e nos importamos tanto em protegê-los se eles não fazem o mesmo e não dão a mínima para o contrário. Estou sendo generalista, pois, infelizmente, diferente do comentário do camarada de cima, a maioria dos homens tem alguma atitude machista, até os que dizem que não.

    Eu não perderia meu tempo dando notas para homens em um app. É babaca, prefiro ler um livro. Mas acho que precisamos tomar cuidado com o quanto fomos condicionadas a “cuidar” deles.

    Uma sociedade sem objetificação seria perfeita. Porém, não é essa nossa realidade atual e nem sei se algum dia será.

    A questão do gostinho bom de fazer isso é muito óbvia e perfeitamente compreensível. São milhares de anos de espancamento, ofensa, estupro, objetificação, enfim. Essa é uma vingança completamente infantil, da mesma maneira que os caras são durante a maior parte de suas vidas. Homens e mulheres sempre foram criados em contradição, acredito que essa questão seja um parcela do cerne de tanta diferença e discórdia. Meninos vestem azul e não brincam de boneca, meninas vestem rosa e não brincam de carrinho. Meninos são fortes, meninas são doces. Tudo sempre em oposição.

    O app não é bacana, mas o que eles fazem conosco até hoje é, no mínimo, uma canalhice escrota sem tamanho. E eles não estão preocupados de serem politicamente corretos. Acho que a discussão deveria continuar sendo essa ou um mero app pode simplesmente tirar o foco da discussão de algo importante para algo que não mudará em absolutamente nada a maneira como somos vistas e tratadas.

    • Cleber Aurélio

      “O gostinho de fazer isso” não é nada compreensível. Nada justifica. Mesmo que os homens fossem realmente assim como você falou (pois não são, sinto muito informar, vocês não são mais oprimidas que nós). E essa ideia de que “não devemos nos importar com os homens porque eles não se importam conosco”… Lamentável, lamentável…

  23. nara

    Que engraçado Ana, é assim que a minha mente fica em vários assuntos feministas. Toda hora me pego pensando se estava certa aquela atitude, se eu devia reformular, se era neura minha, se não estava sendo machista e etc..e acho esse questionamento delicioso. Não sabia de nenhum dos dois aplicativos e realmente é curioso a mulher se colocar nessa posição (e ainda mais os homens se ofenderem sem perceberem o quanto eles fazem isso conosco sem se importar), mas também sigo a sua conclusão. Prefiro uma sociedade sem objetificaçãoo alguma.

  24. André Yamachi

    Olá, meu nome é André e venho acompanhando há pouco tempo o blog e postagens no facebook. Também achei um absurdo a criação de um app com esse intuito, e acharia da mesma forma se fosse criado para mulheres (devem existir também, quando há inversão de papéis sempre tem um impacto maior na mídia).
    Mas assim que li o seu último ”eu”:
    “Mas não é bom fazer os homens se sentirem por um dia na pele das mulheres? Será que isso não pode fazê-los refletir sobre defender coisas tipo o assédio e a objetificação, porque eles vão sentir na pele?”
    somado ao último parágrafo (que senti um tom agressivo) peço para que repense na generalização masculina no post, pois assim como existe vários homens (assim como mulheres) que não se importam de serem objetificados (sede de atenção?), também existe muitos homens (como eu) que apoiam várias lutas pelo direito das mulheres que vocês têm travado.
    Pra finalizar, não acho que os fins justificam os meios, e não concordo no pensamento de ”fazer eles sentirem na pele como é ser mulher”, para isso existe educação e bom senso (por exemplo, não precisei apanhar para se contra violência doméstica). Não acho certo ”punir” todos os homens por culpa da parcela machista conservadora. Parabéns pela visão questionadora e não-hipócrita (é isso que mais gosto no blog/grupo do face, gosto de ver sobre os dois opostos). Não nos veja como inimigos, vários de nós somos aliados… afinal, quero que a minha namorada, minha irmã, e todas as mulheres que amo, vivam num mundo mais just, cresçam e fiquem cada vez mais fortes. E desejo o mesmo para todas as outras pessoas que não conheço :)

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