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A mulher na ficção científica

olga scifi

É de se imaginar que pela riqueza de universos dentro da ficção científica, pela capacidade única de inventar futuros e cenários para a raça humana, mesmo que baseados no nosso mundo, que a mulher já estaria em um nível diferente quando o assunto são os personagens. Existem aquelas que são exemplares, que quebraram estereótipos, mas em algumas questões o assunto precisa evoluir.

O gênero tido como libertário para as mulheres por causa de Ellen Ripley, talvez a mais importante de todas as mulheres da ficção científica, também tem seu viés sexista e machista em muitos enredos. Em alguns, as mulheres são meros bibelôs sexualizados que servem de enfeite para os personagens homens, usando roupas decotadas e tendo papéis acessórios nos enredos. Como bem disse a Feminista Cansada (o mesmo vale para o corpo dos homens):

“Não tenho problemas com o corpo feminino sendo sexualizado, contanto que esta não seja a ÚNICA função do corpo feminino.”

Muitas personagens mulheres estão surgindo hoje em dia em posição de destaque, mas ainda assim vejo que em alguns casos as tais superestimadas fraquezas femininas aparecem, enquanto que com os personagens masculinos eles dificilmente são postos em questão. O homem é em geral branco, definitivamente heterossexual e um lutador incansável e indestrutível. Nos mesmos enredos, as mulheres são coadjuvantes, namorada de alguém, uma médica, uma refugiada, que precisa de proteção. Estas fraquezas sempre são levadas ao máximo quando é uma mulher e são poucos os enredos que abordam isso como se deve. O ser humano tem fraquezas, concordo, mas não é só a mulher. A personagem Kiera Cameron, da série de ficção científica Continuum é um bom exemplo.

olga kiera

Ela é forte, lutadora, uma policial valente, que não pensa duas vezes antes de se pôr em perigo, tendo viajado ao passado na tentativa de prender vários terroristas da sua época. Seria a personagem com menos estereótipos da televisão atualmente se não fosse pela saudade do filho e do marido e as cenas de choro na madrugada. Sei que pode parecer polêmico afirmar isso, mas quem disse que é uma obrigação que toda mulher se case e tenha filhos? Você já viu cenas em que os personagens homens caem no choro de saudades da esposa e dos filhos? Difícil lembrar, não é? São várias cenas dela se maquiando, se perfumando, enquanto seu papel como policial às vezes é deixado de lado. Eu sou vaidosa, adoro maquiagem e perfumes, mas não vejo como apenas isso pode me definir como mulher.

Starbuck, ou Kara “Starbuck” Thrace de Battlestar Galactica é talvez um daqueles personagens odiados e amados da ficção científica. Aliás, a série toda quebrou muitos estereótipos em seus personagens marcantes, inclusive mostrando de maneira muito explícita as fraquezas e os demônios pessoais de todos os personagens. Quem não lembra das cenas do coronel Tigh enchendo a cara por causa da esposa? Starbuck é piloto de Viper, bebe e joga constantemente, sexualmente ativa com muitos parceiros e que não tem papas na língua. Desrespeita oficiais, se mete em brigas de bar e não consegue se amarrar a ninguém. Mesmo as personagens menos intensas, como Laura Roslin, a presidente das colônias, tem força, ela sabe se impôr e às vezes é mais polêmica do que o próprio Bill Adama, como quando sugere que a Almirante Caine seja morta

olga kara

Star Trek inovou nos anos 60 ao colocar uma personagem negra e mulher no elenco fixo de sua série clássica. Uma negra, um oriental, um russo, um alienígena, tudo isso faria da ponte da Enterprise um lugar que demonstrasse a união e a igualdade da raça humana num futuro utópico. Não fosse o fato que o capitão é homem, branco, heterossexual garanhão, indestrutível, o cowboy intergaláctico, a expressão máxima do clichê. Com a Nova Geração a coisa melhorou um pouco, já temos Deanna Troi e a Doutora Beverly Crusher, mas o comando ainda fica com os homens, novamente, brancos e heteros. Em Deep Space 9, uma evolução. O comando é dado a um negro (mas hetero, pai solteiro), com várias mulheres fortes ao redor. Mas é somente com Star Trek Voyager que o comando é entregue à uma mulher, Kathryn Janeway. Curiosamente, os fãs fundamentalistas de Star Trek odeiam a Voyager. Janeway é dura, toma decisões polêmicas, se envolve em missões suicidas para salvar os seus, não recusa uma batalha e ainda assim consegue criar um ambiente próximo ao lar dentro da Voyager. Acho que enfim foi uma personagem digna de quebrar estereótipos dentro do clube do Bolinha que é Star Trek.

olga janeway

O sexismo não fica restrito às séries de TV e aos cinemas. Uma postagem do io9 chamada Women Who Pretended to Be Men to Publish Scifi Books (Mulheres que se passam por homens para publicar livros de ficção científica) mostra o quanto o mercado ainda tem preconceito com a produção cultural feita por mulheres. E um caso curioso, mesmo que pertença à ficção especulativa: um livro escrito por Joanne Rowling não pegaria bem, e o editor sugeriu que a autora usasse apenas as iniciais de seu nome no livro. Como Joanne não tem um nome do meio, ela emprestou o nome da mãe, Kathleen, e ficou eternizada como JK Rowling, a criadora do universo Harry Potter. Quando eu conheci os livros do menino bruxo, achava que era um homem escrevendo, justamente pelas iniciais.

A impressão que passa é que mulher só pode escrever livros de auto-ajuda, culinária ou algo parecido com 50 Tons de Cinza. Não vou criticar o gosto literário de ninguém, mas este é um tipo de livro que não me atrai. Stephanie Meyer, criadora da Saga Crepúsculo, também reforça o estereótipo de que mulheres só escrevem romances colegiais. Eu li Crepúsculo apenas para saber se era tão bom como diziam. E não é. Muita gente sabe que eu escrevo e adoro escrever e quando falo que escrevo sobre ficção científica, muitas disparam: “Nossa, que coisa mais de menino, inusitado né?”. Tá, senta lá

Se mulheres precisam se passar por homens para publicar ficção científica ou especulativa, é sinal de que nem tudo são flores na FC se você for mulher. Se for homem, super sexy hot girls do espaço estarão disponíveis para wallpapers em seu computador. Tente fazer o mesmo se for mulher, procurando por homens para a mesma finalidade. O mercado é sustentado em sua grande maioria por homens, mas não quer dizer que não estejamos aí, consumindo esse material.

Seria ótimo ver mais produção feminina na ficção científica. Gostaria de ver alguma editora nacional trazendo Octavia Butler, uma das maiores escritoras de ficção científica, praticamente uma desconhecida aqui. Gostaria de ver o pessoal lendo A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula K. Le Guin, gostaria de ver uma ficção científica menos sexista, que pare de mostrar homens guerreiros, indestrutíveis e mulheres frágeis e desprotegidas. Este é um gênero que busca o futuro, e não quero um futuro de estereótipos que nos marquem tão negativamente.


Lady Sybylla é paulistana de coração, geógrafa e professora de profissão. Leitora compulsiva de ficção científica e fantasia, ela é a autora do blog Momentum Saga, onde este post foi originalmente publicado, em dezembro de 2012.  

De lá para cá, Sybylla transformou sua frustração com o universo machista e estereotipado do scifi em ação. Ao lado da escritora Aline Valek  e outros 8 autores, criou a primeira coletânea de ficção científica brasileira, a Universo Desconstruído. “Sempre criticamos como a mulher é retratada no scifi. No entanto, a crítica pela crítica é uma atitude vazia”, diz Aline. “Agora queremos provar ser possível produzir algo que discuta os gêneros de forma mais igualitária.” A antologia pode ser baixada gratuitamente aqui em formato kobo, kindle ou pdf. Quem preferir a versão em papel, pode adquirir via Clube dos Autores (392 páginas, neste momento em promoção, por R$ 29,37).

olga universo desconstruido

A seguir, um bate-papo com Sybylla e Aline sobre a Universo Desconstruído.

A proposta da Universo Desconstruído

Aline: “A ideia é quebrar o barraco mesmo. Fazer bagunça. Criticar obras machistas que desumanizam as mulheres e deixam o scifi sempre com essa cara de ‘mais do mesmo’. Queremos provar que dá para fazer algo que feminista e que não castre os homens. Queremos quebrar todo tipo de estereótipo, seja de mulher, de homem, de gay, de trans… Ninguém tem a representatividade que merece.”

Reação à coletânia

Aline: “Muita gente encarou a coletânea com preconceito. Existe esse medo de ‘estragarmos’ a ficção científica que eles conhecer. Choveu crítica de quem nem ao menos leu os contos. E teve uma crítica também às personagens negra e trans. Disseram que isso ‘estragou’ a obra. Gosto literário é uma coisa, preconceito é outra.”

Sybylla: “Como mulheres, temos que provar que gostamos de scifi. Estamos sempre sendo testadas pelo nosso conhecimento, como se nunca fôssemos fãs verdadeiras. No meu blog, onde falo sobre ficção científica, já cansei de receber comentários como ‘para uma mulher, você até que escreve bem’. E tem o outro lado também, de feministas criticando a obra. No Twitter, uma menina escreveu que a coletânea deslegitimava o movimento. Isso acontece porque ela acredita que scifi é coisa de criança. É uma pena como essa produção de nicho não seja levada a sério. Ou seja, é uma pessoa que não só subestima o gênero como não entende o que é o feminismo.”

Ficção científica e o feminismo

Aline: “Acho que a coletânea e o scifi colocam o feminismo em uma embalagem mais atraente e transformam o movimento em algo mais acessível. Fiquei sabendo de uma menina que deu a coletânea para a irmã mais nova e meio machistinha. E a tal da irmã devorou os contos. O formato de scifi a encantou e assim conseguimos expor os problemas do machismo em um formato palatável para ela. Ficamos muito felizes com essa história.”

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.

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2 comments on “A mulher na ficção científica

  1. Alexis Krauss
    30 de novembro de 2013 at 02:40

    Obrigada pelo post, estou amando saber q esse livro existe, ja baixei e pretendo ler nas ferias

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