Crime de mulher pra mulher

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Quando eu era adolescente, tudo que não queria ser na vida era uma menina adolescente. Eu achava que eu era bem legal, mas tinha essa ideia equivocada que todas as outras meninas eram menos interessantes do que eu. Sentia o maior orgulho quando era considerada parte do grupo dos meninos. Num esforço para ser vista como moleca, no nível da personagem Roberta, interpretada por Christina Ricci no filme Agora e Sempre, passei minha juventude usando calça cargo e camisetas de surf de segunda mão. Minha maior missão era fazer com que os meninos da minha escola soubessem que eu não era apenas mais uma garota estúpida – nada poderia ser pior do que isso pra mim. Eu detestava meninas de uma forma crônica.

Quando comecei o colegial, não ia com a cara de uma garota chamada Ella que havia acabado de entrar para meu círculo de amigos. Ela apareceu do nada e logo passou a fazer parte do grupo dos populares (algo que demorei um tempão para conseguir), recebeu convites para todas as festas e chamou a atenção de todos os caras pelos quais eu tinha uma quedinha. Tudo isso já era razão o suficiente para eu odiá-la – algo que parecia totalmente racional naquele momento.

Em uma das primeiras festas do colegial que envolvia álcool e beijos, Ella transou com um cara dentro de um saco de dormir, no meio de uma quarto cheio de gente assustada demais para encostar em alguém do sexo oposto. Eu não tinha qualquer interesse no menino com quem ela ficou, não vi o que aconteceu e aquilo não influenciou minha vida de nenhuma maneira. Mas nada disso me impediu de julgá-la duramente.

Num chat com uma amiga, descrevi exatamente o que havia acontecido sem deixar de ressaltar o quão fácil Ella era. Eu me lembro perfeitamente de chamá-la de “suja” por tudo que ela havia feito na festa. Enquanto detalhava coisas das quais eu não tinha o menor conhecimento (eu tinha 14 anos e nunca tinha beijado), acreditei que minhas ações tinham justificativas: Ella havia feito algo que eu não concordava e eu precisava registrar minha reprovação com minhas colegas.

No dia seguinte, a garota com quem eu havia conversado no chat levou para a escola toda nossa conversa impressa – e ela mostrou para todo mundo a troca de mensagens! No entanto, em vez de me repreenderem por ser uma fofoqueira idiota, invejosa e injusta, as pessoas ficaram do meu lado. Ainda hoje me sinto culpada pela forma como tratei a Ella e outras meninas como ela. É muito difícil superar as merdas que eu pensei, falei e fiz dez anos atrás. E não é como se eu pudesse entrar no Misóginos Anônimos e começar um programa de doze passos para lidar com esses problemas.

Eu sei que não desenvolvemos esse comportamento sozinhas – meninas são basicamente treinadas desde o nascimento para odiar umas às outras. Até mesmo programas infantis têm roteiros que contam a história de uma menina que rouba o namorado de uma amiga. E estamos em 2013 e ainda somos encorajadas a recriminar aquelas que consideramos “vadias”, enxergar outras mulheres como uma ameaça aos nossos relacionamentos, depreciar o visual daquelas de quem discordamos politicamente ou intelectualmente e chamar mulheres bem-sucedidas de “megera” e “mal amada”.

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Quando eu tinha 16 anos, descobri o feminismo – de forma bastante básica – quando minha professora de história moderna usou o vídeoclipe Stupid Girls, da Pink, para introduzir o conceito do movimento durante a aula. Aquilo fez bastante sentido para mim e a ideia ficou grudada na minha cabeça.

Mas foi só aos 19 anos, durante o segundo ano de faculdade, que tive contato com ideias revolucionárias e me cerquei de amigos que apoiavam, encorajavam e concordavam com essa nova visão. A partir daí, comecei a formar o feminismo em que, até hoje, acredito. Ele está sempre se expandindo e evoluindo conforme vou amadurecendo, mas uma coisa nunca muda: para sempre sentirei culpa e vergonha por tudo que fiz e disse durante meus anos pré-feminismo, como a maneira que humilhei Ella e outras meninas.

Toda feminista tem uma história diferente sobre seu encontro com o feminismo. Algumas pessoas mudam de perspectiva por causa de um acontecimento específico; outras foram criadas em um ambiente totalmente consciente dessas questões e não conseguem se imaginar fora do movimento. Eu montei meu feminismo como se fosse Lego: pecinha por pecinha, adicionando, tirando e mudando componentes conforme o tempo.

Kathleen Hanna deu uma entrevista para o The AV Club ano passado onde ela descreveu como seu feminismo evoluiu de uma emoção instintiva e “odiadora” de homens para algo mais abrangente e universal, depois que ela percebeu os efeitos do patriarcado em todas as pessoas, incluindo homens. Essa história me marcou muito, pois foi um reflexo perfeito da evolução do meu feminismo com o passar dos anos. Conforme minhas prioridades mudaram, eu passei a entender e aceitar a ideia de que o feminismo não é UMA missão que se aplica a TODAS as pessoas.

Quando é feito o primeiro contato com o feminismo – aquela ideia bem básica mesmo – você fica toda “sai daqui, homens idiotas!”. Tudo me irritava. Todo filme que eu via, para qualquer lugar que olhava, eu enxergava sexismo. Eu nunca via nada disso antes. E assim que eu coloquei essa “lente” nos olhos, eu ficava mais e mais raivosa…

Mas hoje estou mais interessada em um feminismo que acabe com a discriminação no geral. Não é apenas levar a mulher à cadeira de CEO de uma empresa. É poder conectar o racismo, o preconceito social e as questões de gênero. Não dá para separar essas questões. Na vida de muitas pessoas, existe essa sobreposição de problemas. Por isso, o mais importante é a intersecção.

Essa palavra – intersecção – foi o motivo decisivo que me levou a abandonar o feminismo básico para algo mais parecido com o que Kathleen Hanna descreveu. A intersecção é capaz de reconhecer que as pessoas podem sofrer mais de um tipo de opressão ao mesmo tempo. Mulheres, minorias raciais, LGBTQ e deficientes vivenciam sistemas múltiplos de opressão. Ou seja: você nunca é “apenas” uma mulher – você é uma mulher que é latina, ou uma mulher com algum tipo de deficiência, etc.

Ter consciência dessas intersecções transformou meu feminismo em algo mais sólido, mais importante e me ensinou que o capacitismo, o racismo e o preconceito social são tão destrutivos quanto o sexismo, a homofobia e a misoginia – comportamentos que eu havia, lentamente, acostumado a ignorar. Me conforta saber que, enquanto meu feminismo estava se transformando no que é hoje, eu tinha ícones como Kathleen Hanna para me guiar.

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Quando a princesa da música Grimes se desculpou em seu Tumblr por usar um bindi, eu enxerguei a situação como uma forma que ela encontrou de superar a culpa que sentia pelo que fez antes do seu feminismo evoluir. Eu não o vejo como um exemplo de feminismo de intersecção, mas fiquei feliz ao ver o rapper A$AP Rocky enfrentar as atitudes homofóbicas que ele teve durante a juventude, em entrevista ao estilista Alexander Wang, para a Interview Magazine. Rocky é um exemplo incrível de alguém que não tem medo de continuar se educando – e educar também as pessoas que ele influencia –, admitir seus erros e pedir desculpas por eles.

Quando eu era mais jovem, também fiz e disse coisas terríveis – resultado de uma combinação de condicionamento social e ignorância pura. Cresci em uma cidadezinha do interior da Austrália onde era normal chamar alguém de “gay” ou “retardado”. Por mais que eu despreze esse comportamento, eles são marcos da minha jornada como feminista. Eles me ajudaram a evoluir, a desaprender hábitos e superar intolerâncias.

Sem o feminismo, eu não teria me armado com as munições necessárias para mudar minha forma de pensar, aceitar e entender outras mulheres e corrigir o slut-shaming do passado. Sem o feminismo, eu ainda seria uma menina de 15 anos raivosa que rabisca a cara da Rachel Bilson e da Samaire Armstrong do pôster do The O.C. porque ela beijava o Seth e eu não (claro, se elas não existissem, certamente eu seria próxima da fila!).

É importante aceitar essas fases da vida. Claro que eu preferiria esquecer os anos que passei odiando meninas como a Ella para impressionar os meninos, mas isso não me levaria a nada. Para que possamos aprender de verdade com as nossas experiências, precisamos admitir o que fizemos e tentar compreender o porquê aquilo foi problemático.

O feminismo de cada uma de nós provavelmente não vai acabar no mesmo lugar ou talvez nem mesmo seguir o mesmo caminho, mas se começarmos a ser honestas conosco e com nossos próprios preconceitos, ao menos todas nós seguiremos na mesma direção.


Brodie Lancaster é escritora de Melbourne, Austrália. Ela é o cérebro (e os peitos) por trás do zine Filmme Fatales, que fala sobre mulheres no cinema. Sua dieta é 80% pad thai e ela gostaria que todo mundo fosse mais simpático com a Kim e o Kanye. Você a encontra em todas as mídias sociais como @brodielancaster.

As ilustrações são da Ashley Blanton.

Este post foi originalmente publicado no Rookie Mag e traduzido com a autorização da autora. Obrigada, Brodie! 

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.

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One comment

  1. Nina Franco
    2 de novembro de 2013 at 02:53

    Creio ser exatamente essa a questão.
    Como já comentei aqui em outro post, o feminismo perde a sua força no momento em que ele se fragmenta por não conseguir entender diversidade que existe dentro do movimento. Não é porque no fundo todas almejamos um só objetivo como grupo, que vamos nos manifestar, como indivíduos, todas exatamente da mesma maneira…
    Existe o feminismo e as feministas, creio ser o feminismo uma coisa só, mas as feministas são pessoas como outras qualquer e pessoas não se comportam, sentem e existem da mesma maneira e não cabe a ninguém julgar qual é a maneira certa ou errada (se é que podemos adjetivar assim).

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