No Rio, abuso sexual e de autoridade

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O país já está há semanas debatendo o assédio sexual em locais públicos. No entanto, ontem, a Mídia Ninja reportou que, durante as manifestações dos professores no Rio de Janeiro, Anne Melo foi detida por ter respondido ao assédio de um oficial do Batalhão de Choque da Polícia Militar do RJ. Ele a chamou de “gostosa”. Ela não gostou, retrucou e foi levada para o camburão por cinco PMs. Veja o vídeo.

Não estamos apenas falando de assédio sexual, mas também de abuso de autoridade. Onde está Ane Melo? O que aconteceu com ela depois da detenção, longe dos olhos dos outros manifestantes? 

O que deveria ser inaceitável, no entanto, acontece com mais frequência do que imaginamos. Abaixo, alguns relatos de assédio envolvendo policiais retirados da seção depoimentos da campanha Chega de Fiu Fiu

  • “Descendo uma rua da Liberdade, em SP, um policial deu bom dia pra mim. Respondi educadamente bom dia, e ele fala ‘bom dia, coisa linda’. Falei que ele não tinha direito de falar comigo daquele jeito, ele disse que era autoridade, eu xinguei ele de abusado, ele disse que eu estava desacatando a autoridade. Eu disse que ele tava me desacatando, xinguei de escroto e sai andando.” JULIA
  • “Às vezes alguns policiais olham e/ou mandam uma cantada. Contei uma vez de um policial para um ex namorado e ele muito ciumento ficou bravo comigo e ainda disse que eu gostava.” DANI
  • “Uma vez eu saí com uma amiga, ela tinha uns 18 e eu ainda 16, dois policiais acharam que éramos namoradas e começaram a desfiar comentários como ‘depois é estuprada e não sabe porque, tem que aprender mesmo’. Se respondêssemos seria desacato, e quem ouviu nada pôde fazer também. Era sair de perto e tentar esquecer, e sabe se lá quantas meninas ouviram coisas assim antes ou depois de nós e ‘fugiram” também.” ANA
  • No ano passado, estava procurando uma casa de sucos que ficava próxima ao Parque Trianon, na Alameda Santos, mas que por alguma razão não conseguia encontrar. Era noite e depois de ir e voltar algumas vezes, passando pela quadra do Parque escura e vazia, vi um PM e me dirigi a ele para perguntar se ele conhecia a casa de sucos ou sabia em qual quadra ficava a Peixoto Gomide (não conseguia encontrar a placa e sempre fico confusa com os totens da Paulista: é essa ou é a próxima?). Eu estava com um pouco de receio de ficar andando por ali porque sempre escuto histórias de como o Trianon é perigoso para as mulheres à noite. Vi no PM a falsa segurança que precisava para parar alguém e pedir informação. Me lembro de ter dito algo como “Com licença, o senhor por favor poderia me ajudar porque estou um pouco perdida?”. E ele “Mas o que uma moça linda como você faz andando sozinha por aqui?”, com um sorriso de canto de boca horroroso. Eu, que sempre contesto as cantadas que recebo, confesso que fiquei paralisada. Era um policial, armado, estava escuro e eu estava ali do lado de um monte de moitas do Parque Trianon. Insisti, séria, que estava procurando a Peixoto Gomide e ele insistiu no “meu doce, minha linda”. Fiquei ainda mais apavorada, mas uma senhora passou por nós e aproveitei para lhe perguntar, já que o PM só me dirigia perguntas pessoais “Está indo encontrar seu namorado? Ele te deixa andar assim sozinha?”. Ela me deu a direção e fui andando com ela, tremendo de nervoso. Estava brava por não ter reagido, brava porque sabia que o PM estava usando de sua autoridade para me dar cantadas sem que eu pudesse reagir e arrasada por ter confiado que um agente público fosse instruído a ter uma conduta minimamente decente para com os cidadãos. Mas só sei que meu medo de denunciar sem ter prova alguma – que não o meu testemunho – foi maior (que força tinha eu, sozinha?), assim como meu medo de reagir e ser presa por desacato também foi maior. Escolhi a cautela, porque tive medo das inúmeras violências que poderia sofrer. Mas é preciso cobrar da SSP uma postura clara sobre o assunto. B.C.
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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.

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2 comments on “No Rio, abuso sexual e de autoridade

  1. Ana Carolina Simões
    30 de outubro de 2013 at 18:50

    Um dia estava subindo uma das ruas perto do metrô Tucuruvi, indo para uma prova. Atravessei a mesma rua, pra perto de três ou quatro PMs. Quando eu passei, senti que eles estavam me “analisando”, fiquei extremamente constrangida.
    Poxa, eles deveriam estar ali para me proteger e não pra ficar me olhando!
    Chego até a imaginar o que esses caras fariam se eu dissesse que estava sendo assediada por um rapaz.

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