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Girl (tech) power: as mulheres de TI

olga tech

“Ela é mulher, mas é uma excelente programadora.” Que atire o primeiro código aquela que nunca ouviu isso no ambiente de trabalho. Disfarçada de elogio e frequentemente proferida na área de tecnologia, a frase é um retrato do preconceito que ainda assombra o setor e resulta até mesmo em disparidade salarial. No mesmo cargo de gestão, mulheres podem ganhar até 23% menos do que homens. A boa notícia é que o contra-ataque feminino vem ganhando forças.

No exterior, Sheryl Sandberg, vice-presidente de operações do Facebook, denunciou a discriminação sofrida pelas mulheres no mercado de trabalho, principalmente no de inovação, em seu livro Faça Acontecer. Em terras nacionais, contamos com a luta da Mulheres na Tecnologia (/MNT), ONG que visa o aumento da participação e o reconhecimento do potencial feminino na TI.

O grupo – criado há quase 5 anos por Andressa Martins, Narrira Lemos e Luciana Silva – organizou recentemente uma pesquisa online em que questionava sobre a existência de preconceito de gênero no setor. Mais de 70% dos participantes responderam que sim. “Não são raras as situações constrangedoras que uma profissional vive por estar num ambiente que supostamente não seria o dela”, afirmam Danielle Oliveira e Márcia Santos, conselheiras da /MNT. “Ouvir que programação é difícil para as mulheres é bastante comum no nosso dia-a-dia.” 

Abaixo, uma entrevista com a /MNT sobre as mudanças no atual cenário do mercado de trabalho e as ações que vão provar que tecnologia é coisa de mulher sim!


1 ) Em termos de gênero, qual é o atual cenário da área de tecnologia no Brasil? 

Podemos afirmar que o as mulheres geralmente representam entre 10 a 30% de profissionais na indústria de Tecnologia da Informação no mundo. Os números variam muito de país para país, de um modo geral há menos mulheres donas de suas próprias empresas ou startups do que as trabalham em empresas públicas ou privadas, e esta proporção é menor ainda em cargos de gestão técnica.

Nos Estados Unidos, incluindo os cargos administrativos, elas são 32% dos profissionais de TI. No Canadá, elas representam cerca de 23 a 28%  e, na França, são 20%. No Brasil, as mulheres correspondem a aproximadamente 19%, segundo o PNAD/2009. Diversas pesquisas apontam que há preconceito de gênero, e em uma pesquisa realizada em julho de 2012 em um evento da SBC foi afirmado que “a resistência – quando a menina diz que quer fazer computação ou alguma área tecnológica- começa em casa, com os pais e familiares; depois as adolescentes acabam esquecendo e não se identificam mais com a área.”

2 ) Ada Lovelace, Grace Hooper e as programadoras do Eniac são algumas mulheres ícones da área de tecnologia e programação. Quando foi que as mulheres perderam espaço para os homens nesse setor?

A professora da Unicamp, Claudia Medeiros – premiada pelo Instituto Anita Borg em reconhecimento a sua atuação em favor da inserção da mulher na computação no Brasil – citou em uma entrevista que havia duas hipóteses para este desinteresse feminino: uma econômica e outra social.

Justificou que o aspecto econômico deriva de um aumento da competição na área. “Antes, as mulheres buscavam profissões associadas porque não havia tanto interesse. À medida que o setor evoluiu e começou a oferecer salários melhores, os homens pressionaram o mercado de trabalho e a competição foi acirrada”, disse. A hipótese social considera o fato de a computação ser vista como uma profissão que privilegia o trabalho em isolamento, na qual se passa o dia todo diante de uma tela. A mulher teria preferência por atividades que incluam contatos humanos. “Sabemos que isso é uma mistificação, pois a computação exige cada vez mais interação social e tem importância em todas as áreas”, afirmou.

Acreditamos na hipótese econômica, onde, assim como em outros profissões de ciência e tecnologia, a mulher começou a perder espaço a partir do momento em que esta passou a ser uma área de atuação reconhecida e respeitada. Na medicina, por exemplo, até o século XIV as mulheres tinham um conhecimento tácito dos processos de curas. Com a advento da ciência moderna, a medicina se tornou uma profissão masculina e as mulheres foram proibidas pela sociedade e a igreja de exercê-la sendo consideradas bruxas as mulheres que ainda o faziam.

3 ) Vocês são otimistas com as mudanças, em termos de gênero, na área de computação, inovação e tecnologia? Como enxergam o futuro das mulheres na TI?

Estatisticamente, o percentual de mulheres em relação aos homens que se ingressam nos cursos de tecnologia vem reduzindo. Este é um fator preocupante, mas também incentivador de uma resposta da sociedade. Novos grupos, blogs e organizações sem fins lucrativos surgem focados na discussão desta temática. Grandes empresas de tecnologia, como Thoughtworks, Google, IBM, Microsoft e HP, começaram a se preocupar em ter mulheres no seu quadro de funcionários e já possuem programas específicos de retenção de talentos femininos e incentivo a entrada de novas mulheres.

Diante a compreensão das empresas sobre a importância de termos a diversidade de talentos e o cuidado em manter um clima apropriado, somos otimistas com o futuro das mulheres na área, mesmo entendendo que ainda a muito para se trilhar.

4 ) Como incentivar mais mulheres a participarem dessa área?

Temos um caminho longo a percorrer, várias ações ainda precisam ser tomadas no sentido não só de incentivar a participação de mais mulheres na área mas também de empoderar as mulheres que já estão na área. Podemos citar três linhas de atuação do grupo:

Conscientização da sociedade é a primeira forma de mudança desta cultura. Em março deste ano, organizamos o 1º Encontro Nacional de Mulheres na Tecnologia que contou com a presença de 100 mulheres que participaram de mais de 20 atividades. Para o ano de 2014, já estamos organizando o 2º Encontro Nacional que acontecerá nos dias 27 e 28 de março.

Aumentar a autoconfiança das mulheres na tecnologia. Temos a ideia de criar um espaço virtual e permanente de troca de informações, profissionalização, empregabilidade e sociabilização nas áreas de inovação e tecnologia.

Estamos elaborando um projeto piloto com objetivo de apresentar a jovens de ensino médio noções básicas de programação e robótica estimulando a curiosidade e interesse na área de tecnologia da informação. No âmbito da recolocação profissional, estamos iniciando em Goiânia um projeto piloto de capacitação e apropriação de tecnologia.

5 ) Qual seria o impacto que a industria da tecnologia sofreria se existisse mais mão de obra feminina?

O maior número de mulheres atuando nas empresas resultaria num ambiente com maior diversidade. Este tipo de ambiente tende a ser mais estimulante e produtivo, favorecendo a elaboração de novos projetos e soluções. Isso contribui para a obtenção de um clima positivo que, pelo combate à intolerância, estimula a cooperação e a sinergia entre os profissionais da organização em torno de seus objetivos comuns. De forma que cria-se um ambiente que reforça os vínculos dos funcionários com o trabalho e sua identificação com a empresa, ajudando a gerar ideias novas e a aumentar rendimentos.

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.

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