Chega de Fiu Fiu: resultado da pesquisa

Ninguém deveria ter medo de caminhar pelas ruas simplesmente por ser mulher. Mas infelizmente isso é algo que acontece todos os dias. E é um problema invisível. Pouco se discute e quase nada se sabe sobre o tamanho e a natureza do problema. Para tentar entender melhor o assédio sexual em locais públicos, a Olga colocou no ar, em agosto, uma pesquisa elaborada pela jornalista Karin Hueck, como parte da campanha Chega de Fiu Fiu. Contamos com 7762 participantes e 99,6% delas afirmaram que já foram assediadas  - um número tão alto que já dá a ideia da gravidade do problema. Veja abaixo o resultado:

Onde você já recebeu cantadas? (era possível selecionar mais de uma opção)
Na rua  98%
No transporte público  64%
No trabalho  33%
Na balada  77%
Em lugares públicos: parques, shoppings, cinemas  80%

olga onde ja recebeu cantada

Você acha que ouvir cantada é algo legal?
Sim 17%
Não 83%

olga voce acha que ouvir cantada é algo legal

Você já deixou de fazer alguma coisa (ir a algum lugar, passar na frente de uma obra, sair a pé) com medo do assédio?
Sim 81%
Não 19%

olga voce deixou de fazer algo com medo de assedio

Você já trocou de roupa pensando no lugar que você ia por medo de assédio?
Sim 90%
Não 10%

olga voce ja trocou de roupa por medo de assedio

Você responde aos assédios que ouve na rua?
Sim 27%
Não 73%

olga voce responde ao assedio

Se sim, como?

SeSim

Se não, por quê?

SeNao (1)

Quais cantadas você já ouviu em espaços públicos?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Linda  84%
Gostosa  83%
Delícia  78%
Fiu fiu  73%
Princesa  71%
Nossa senhora  64%
Ô lá em casa  62%
Boneca 47%
Vem cá, vem  44%
Te pegava toda  36%
Te chupava toda  36%
Outros  4%

olga voce ja ouviu alguma dessas cantadas

Se você já recebeu cantadas indiscretas no trabalho, de quem foi?  (era possível selecionar mais de uma opção)
De um superior  13%
De um colega  21%
De um cliente  14%
De um funcionário  9%

olga cantada no trabalho

Que tipo de cantada você já ouviu no ambiente de trabalho?

trabalho

Você já foi assediada na balada?
Sim 86%
Não 14%

olga voce ja foi assediada na balada

Já tentaram te agarrar na balada?
Sim 82%
Não 18%

olga ja tentaram te agarrar na balada

Se sim, como?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Pelo braço 68%
Pelo cabelo 22%
Pela cintura 57%
Outros 4%

olga corpo agarrar na balada

Já passaram a mão em você?
Sim 85%
Não 15%

olga ja passaram a mao em voce

Se sim, onde?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Peitos 17%
Bunda 73%
Cintura 46%
No meio das pernas 14%
Outros 4%

olga ja passaram a mao onde

Você já foi xingada porque disse não às cantadas de alguém?
Sim 68%
Não 32%

olga voce ja foi xingada porque disse nao as cantadas

Se sim, do quê?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Metida 45%
Baranga 16%
Gorda 13%
Feia 23%
Mal-comida 25%
Outros 17%

olga xingamentos

Por favor, conte um episódio de cantada que ficou marcado na sua lembrança (alguns exemplos):

  • Um dia saí de casa para buscar fotos que eu havia mandado revelar. Era um dia frio e eu estava bastante agasalhada, nada estava amostra. E mesmo assim, por onde eu passava homens me observavam com olhares maliciosos, comentários baixos de desmerecimento e um deles até chegou a dizer “Ai, se essa buceta estivesse na minha cama”.
  • Em um bota fora da faculdade um menino tentou me agarrar fazendo uma chave de pescoço, enquanto dizia que eu era linda.
  • Em uma balada um menino passou a mão em minha bunda, por baixo da saia.
  • Eu tinha uns 11 anos. Era carnaval, as ruas cheias. Eu era uma criança. Lembro que estava de shorts não muito curto e uma camiseta. Um homem passou a mão em mim e acariciou meu cabelo dizendo: “Fooooofa” mostrando a língua depois.
  • Já estava perto de dobrar a esquina (da rua onde moro), à noite. Um cara vinha na direção contrária a minha. Quando chegou perto de mim, falou baixo: “Quer chupar meu pau?”. Pensei logo q seria estuprada, pq a esquina da minha rua é bem deserta e tal.
  • Eu estava voltando para casa, a pé. A rua estava praticamente vazia no ponto onde me encontrava e ao meu lado, uma motocicleta reduziu a velocidade. O motoqueiro ficou dizendo frases como “sobe aqui e eu te mostro como se trepa”, “meto em você todinha, delícia”. Fiquei constrangida e assustada, decidi ignorar o motoqueiro e ele foi embora sem que eu o olhasse. Tive medo de ser estuprada.
  • Eu tinha dez anos, estava andando de bicicleta e um cara, que veio andando de bicicleta, passou do meu lado e apalpou a minha bunda. Fui para casa chorando, corri falar com os meus pais chorando muito. Eu tinha me sentido invadida, mas não tinha entendido direito o que havia acontecido.
  • Andando na rua as 19 da noite em frente ao shopping Patio Savassi, eu, com 16 anos, ignorei um grupo de homens que me assediaram com palavras e levei um tapa com muita força na bunda. Chorei de dor e humilhação.
  • Ouvi um cara começar a me chamar de gostosa na rua e ignorei. De repente, o cara veio se chegando pro meu lado no ponto de ônibus, com o pau pra fora, batendo uma punheta pra mim, me chamando de gostosa. Entrei no primeiro ônibus que encostou, nem vi para onde ia, só pra fugir do safado. Quando cheguei em casa chorando, minha mãe perguntou o que tinha acontecido. Depois que contei, ela perguntou: “E o que você fez pra provocar o homem, ele não colocou o pau pra fora à toa”. Depois disso, nunca mais contei nenhum episódio de assédio, abuso ou qualquer outra coisa pessoal que aconteceu comigo.
  • Um cara de bicicleta invadiu a calçada na qual eu caminhava tranquilamente, à noite, e passou a mão nos meus seios.
  • Estava num show de rock e alguém enfiou o dedo na minha bunda. Eu tinha 15 anos. Parece até engraçado falar assim, mas foi traumático e doentio.
  • Andava a pé até a academia quando tinha 15 anos. Como, com o tempo, comecei a ficar muito incomodada com as cantadas, olhares, motoqueiros buzinando, acabei decidindo que ia colocar uma calça moletom e camiseta por cima da roupa de academia. Com isso, as cantadas imediatamente pararam, mas eu passava muito calor com 2 roupas, andando na rua em dias de sol.
  • Uma vez um sujeito masturbou-se ao meu lado no ônibus. Fiquei tão em choque que só tive a reação de sair do local desesperada. Não consegui gritar, nem fazer um escândalo.
  •  Era nova, mais ou menos 16 anos, estava passando por uma rua sozinha e me deparei com um grupo de homens torcedores de algum time que não me lembro (estava num bairro próximo a um estágio em Belo Horizonte, num dia de jogo). Eles começaram a me “cantar”, de repente estão passando a mão em mim, pelo menos uns quatro homens me empurrando. E eu desesperada saí andando rápido, tentando me soltar. Foi desesperador… Senti um medo real de me estuprarem coletivamente.
  •  Estava andando despreocupada, com fones de ouvido. Eram 17 horas e a rua estava bem movimentada, inclusive com vário pedestres fazendo caminhada. Um homem de moto diminui a velocidade ao passar por mim e enfiou a mão no meio das minhas pernas, de uma forma totalmente brutal. Fiquei assustada e o xinguei. Demorei uma semana para esquecer a sensação daquela mão no meio das minhas pernas.

1.011 Respostas para “Chega de Fiu Fiu: resultado da pesquisa”

  1. Maria Fernanda Arvelos

    Tenho 17 anos e moro numa pensao em frente ao Anglo Tamandare,onde eu estudo.Todos os dias, passo em frente a um estacionamento onde 2 homens, com idade para serem meu avo, falavam palavras ofensivas sempre que eu passava. Reclamava pra alguem, e sempre me diziam pra mudar o caminho. Mas,por onde passava, sempre homens passavam com comentarios que me faziam sentir nojo. Numa quarta feira, dia de feira na rua em frente a pensao, estava com uma amiga no cursinho e fui com ela ate o supermercado. Estava usando shorts, coisa q eu evito fazer, mesmo quando esta muito calor, para evitar ser desrespeitada, e havia alguns homens terminando limpando a rua apos a feira, Entao, começaram a falar coisas como: princesa, amei suas coxas, mas deveriam estar mais bronzeadas para me satisfazer.. vou te deixar da cor do seu tenis ( vermelho), imagino vcs na minha casa..vou acordar vcs amanha nas suas camas. Me senti suja por dentro e comecei a chorar,liguei para meu pai e ele disse para eu nao ligar e parar de ser fresca. Entao, como sempre quis fazer, fui ate a policia. Eles me atenderam bem, mas, inclusive a delegada, disse para eu nao usar shorts para nao provocar ninguem, Infelizmente, nao pude fazer bo pois teria que chamar meu pai. Nao havia o que fazer, pois eu nao sabia quem eram esses homens, mas comentei sobre os velhos do estacionamento, Entao os policias foram com a viatura ate la e repreenderam os dois. Embora tivesse muito assustada,e nao consegui fazer nada contra os homens que me assediaram momentos atras,apenas os do estacionamento,tive um pequeno sentimento bom, como se, embora minimo, fiz algo contra esse desrespeito cotidiano. Mas ate hoje nao tive coragem de contar para ninguem, nem para minhas colegas que enfrentam isso todo dia, nem para meu pai, pois ainda falam que a culpa é minha e tenho que ignorar.

  2. Felipe de Melo

    pelos relatos acima, acho que estão confundindo uma cantada “tradicional” com assédio e atentado ao pudor… Arrrmaria… Credo!!

    • Olga

      Se tem alguém confundindo algo aqui é você, Felipe de Melo. Não existe “cantada tradicional”. Existe assédio, violência, humilhação, intimidação.

      • Augusto Alves Graeff (@gustoalvesg)

        Ok …. se é só isso que existe … ou se esse é o universo, então nada pode ser feito. Homens não podem mais se aproximar e mostrar interesse, porque isso pode ser interpretado como “cantada”. Homens educados podem ser colocados neste rol. Os relacionamentos vão sumir … desse jeito. Me parece que existem entendimentos diferentes sobre o que é realmente cantada. Para o Felipe … cantada pode ser toda e qualquer demonstração de interesse por parte do homem, com respeito e sem intimidação … mas para vc Olga, cantada parece ter um significado diferente. Vc parece incluir a cantada … no bojo de todas estas manifestações que evidenciam assédio, violência, humilhação ou intimidação. Sendo assim, cantada sempre será algo negativo e condenável, pois ficaria restrita a este “quadrado” que desenhou.
        Posso dizer p/ vc , com absoluta convicção, que algumas mulheres gostaram da minha abordagem ou da maneira como eu demonstrei interesse nelas. Na minha ótica … o que fiz foi praticar, por isso entendo que “cantei” essas mulheres. Algumas dessas iniciativas acabaram me proporcionando bons relacionamentos. Vc parece ser exagerada, precipitada, pois já dá o seu veredito sem conhecer o rapaz ou entender melhor o que ele quis dizer.

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