Por que estimulam a anorexia?

olga corpo

Famosa por postar fotos de sua magreza na internet, a webcelebridade brasileira Dai Dornelles, 21 anos, morreu de hepatite viral, doença encadeada pela anorexia nervosa. Ontem, um texto publicado no Youpix debate a glamurização do transtorno alimentar nas redes sociais e levanta a pergunta: “Até quando vamos ignorar este problema?”

A verdade é que ignoramos o problema porque não o identificamos. Reconhecemos anorexia em imagens chocantes de corpos fracos, que mais se parecem com esqueletos. Só que a doença não é só isso. Um ser humano normal tem uma camada de gordura no abdômen. Se um corpo chega na mesa de um médico legista e não há nenhuma gordura ali, a pessoa é diagnosticada como anoréxica – mesmo que ela pareça saudável. No entanto, nos fazem acreditar, diariamente, que magreza excessiva é #projetoverão. Trocam o nome do problema e oficializam como barriga negativa – soa menos danoso, menos nocivo e, vá lá, até passível de inveja. 

Stephanie Noelle, repórter de beleza da revista de moda L’Officiel, escreveu sobre o assunto, com foco na imagem extremista que algumas blogueiras famosas passam às suas leitoras. “Essa semana, inclusive, tava passeando pelo Instagram e vi umas fotos com umas hashtags bem maluconas. Tipo ‘se tá difícil pra você, imagina pra quem acabou de comer’. Fiquei bege. Gente, desde quando comer é errado?”, disse. “Se elas/eles não vão parar de usar termos de ordem e expressões tipo ‘chega de moleza’, ‘desculpinha’ e tal e coisa, seria uma boa se a gente, pela nossa sanidade e felicidade nesse mundo já tão difícil, parasse de achar que só esse caminho é possível.”

Gostaria que a magreza, a saúde, o bem-estar e a beleza fosse debatido de forma mais honesta, mais real. Que entre os truques, os macetes e as dicas para perder peso, também encontrássemos conselhos, aqueles de mãe, dados com o coração. Que aqueles que usam do poder de conversar com as mulheres e meninas tenham cuidado – e não apenas no sentido de cautela, mas também de zelo e responsabilidade pelo outro. Cuidado com o próximo.

Abaixo, a tradução de um post do Rookie Mag, em que uma adolescente relata seu problema com o corpo e a forma delicada como a colunista tenta ajudá-la.

Eu fico genuinamente mais feliz quando estou mais magra. Só que, para isso, preciso monitorar minha dieta de forma dura e cortar todas aquelas besteiras para chegar lá. Mas agora cheguei ao ponto de me sentir MUITO CULPADA sempre que como algo que não seja muito saudável – e não consigo superar a culpa. E aí, me sinto culpada porque não estou praticando body positive (prática de aceitar o corpo como ele é), algo que sempre defendo. Quando estou mais magra, me sinto mais feliz, mas emagrecer é resultado de estar sempre me privando de coisas que eu amo. Não sei como quebrar a relação entre minha saúde e felicidade e assim manter minha sanidade intacta. – Mads.

Esse é um problema super comum – por sinal, parabéns por reconhecer que o ciclo vicioso em que você está é algo negativo. Enquanto comer de forma saudável é ótimo, monitorar de forma paranóica tudo que você coloca na sua boca não é. Dietas podem ser como ladeiras escorregadias que te fazem cair em problemas alimentares, algo que, obviamente, devemos evitar. 

Primeiro, se pergunte o motivo de você se sentir mais feliz quando está mais magra. De onde você tira essa ideia de que seu valor está ligado ao seu tamanho? Seus amigos ou pais estão participando dessa conversa sobre dieta ou te envergonhando de alguma forma por causa do seu corpo? Se for o caso, mude a conversa quando esse papo surgir. Tente mudar o assunto. E se insistirem, talvez seja hora de iniciar um papo sobre a forma como eles falam sobre você e como isso te reflete em você.

Em vez de tentar uma dieta alimentar, que tal tentar uma dieta de mídia? Esqueça aqueles programas baratos de TV, tabloides e revistas femininas. Eu sei que isso talvez soe desnecessário, mas você vai ficar surpresa ao descobrir o quando o que você pensa do seu corpo depois de alguns meses sem internalizar as mensagens sobre o que é um corpo “bom” ou “ruim” do TMZ ou Us Weekly.

E não se culpe por comer porcarias às vezes. Privação alimentar combinada com culpa e vergonha é a receita perfeita para dieta ioiô e comilança. Você provavelmente vai precisar ir devagar, com passinhos de formiga, até aprender a comer o que quiser sem culpa. Evite rotular as comidas como “saudáveis” e “não-saudáveis”. Claro, algumas comidas tem menos nutrientes do que as outras, mas todas as comidas têm um espacinho em nossas vidas. E muito de qualquer coisa – até mesmo brócolis! – vai ter um efeito negativo na sua saúde. Tente comer apenas um snack de alguma besteira por dia (se isso já for muito para você, vá devagar) e pratique dizer para si mesma que você não está fazendo nada de errado. Afinal, sua saúde emocional faz parte da sua saúde também. Se você começar a ter sentimentos de culpa, fale com eles. Diga que você sabe que eles não fazem sentido. E troque o foco: dê valor para o sabor delicioso das batas fritas ou quão bom foi dividir um chocolate com seus amigos enquanto viam um filme.

Se nada disso funcionar, talvez esteja na hora de conversar com um conselheiro da escola ou até um terapeuta. Pode demorar até conseguirmos desenvolver hábitos alimentares saudáveis, então ter alguém que te ajude a passar por isso possa ajudar. – Gabi

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.

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6 comments on “Por que estimulam a anorexia?

  1. Cris B.
    28 de agosto de 2013 at 18:20

    É muito triste ver isso! É muito triste ver amigas minhas se enfiando em dietas malucas porque “estão fora dos padrões”? Que padrões? Eu gostaria que as pessoas pensassem mais no padrão SER HUMANO!

  2. vanessatais
    29 de agosto de 2013 at 19:25

    Infelizmente isso existe mais do que podemos imaginar!
    Vanessa

  3. Fatima Salomeh
    30 de agosto de 2013 at 14:18

    Ontem eu ouvi um outra prof. da minha escola dizer que vai fazer cirurgia bariátrica por razões puramente estéticas, pq ela tem vergonha de ser gorda. Simplesmente. Estar acima do peso, seja lá que peso for, é motivo de vergonha hoje em dia. Eu não entendo isso.

  4. Priscilla Barreto
    31 de agosto de 2013 at 03:31

    Bom texto, mas não respondeu a pergunta inicial. o objetivo era gerar reflexão?

  5. Orlando
    2 de setembro de 2013 at 01:43

    Muito interessante. A parte que mais me chamou atenção foi o termo “dieta de mídia”, algo que de fato traz sensíveis mudanças no nosso modo de agir, pensar e observar. Ótimo post!

  6. Rodrigo
    10 de setembro de 2013 at 02:12

    É triste ler isso, ainda mais sabendo que uma menina morreu. E o que eu acho mais cruel é que a maior parte da mídia que manipula essas dietas suicidas e ideais de ultramagreza é feita por mulheres. De mulheres para mulheres.

    A proposta de “dieta de mídia” é sensacional. Se as mulheres fizessem mais essa dieta, ficariam mais saudáveis.

    Porém, tem um elemento na ditadura da magreza que às vezes passa despercebido: o status. O Inácio Ribeiro, da Clements Ribeiro (grife brasileira-british que veste muito a Adele) deu a seguinte resposta à pergunta da Sonia Racy, pro Estado de S. Paulo (aqui: http://blogs.estadao.com.br/sonia-racy/inacio-ribeiro-o-xodo-de-adele/):

    “O que acha da ditadura da magreza que vivemos?

    Hoje em dia, magreza não é só ideal de beleza, mas um símbolo de status, de riqueza. Porque, para a mulher se manter super magra, há um custo elevado. Acho positivo o fato de existir, no mundo pop, um sucesso como a Adele, que quebra todos os padrões.”

    Aí aparece a face mais cruel da cultura da magreza.

    Mas deixo uma pergunta, como homem, às mulheres: e o que falar do padrão de beleza “mulher fruta” (também nada saudável)? Isso impacta as mulheres também (obsessão por séries de musculação, dietas proteicas, suplementos e etc)?

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