As mulheres de Game of Thrones

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A série Game of Thrones, derivada da sequência de livros Crônicas de Gelo e Fogo escritos por George R. R. Martin, tem apenas três temporadas e já figura entre as produções mais bem-sucedidas da história da TV norte-americana. Os livros carregavam milhares de fãs por onde passavam e, depois da estreia da série em 2011, a comunidade de admiradores tomou forma e teve uma adesão massiva das mulheres – algumas ainda viam o tema “medieval-fantasia” com certo preconceito.

Ao transferir as histórias de Westeros das páginas para as telas, os criadores David Benioff e D. B. Weiss tomaram uma decisão que mudaria os rumos da narrativa: dar mais destaque às personagens femininas. Quem acompanha provavelmente percebeu que a série teve uma mudança gradativa, desde uma primeira temporada recheada de nudez feminina e batalhas até a terceira, com mais foco nos diálogos e nos dramas pessoais dos personagens.  E foi assim que a série da HBO colocou no centro das atenções uma cavaleira, uma rainha, uma menina fugitiva e uma herdeira com sangue de dragão.

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BRIENNE DE TARTH

Brienne se tornou cavaleira da Guarda do Rei por opção. Ela se comporta exatamente como um soldado é treinado a se comportar, no entanto, não é considerada como “um dos soldados” entre os outros cavaleiros. Os homens a desprezam e fazem piadas, e as mulheres não sabem muito o que pensar, abominando-a por abrir mão de sua feminilidade e não aderir às função de donzela que o gênero exige nessa sociedade. Brienne vive entre os dois mundos sem acesso total a nenhum, o que define a sua personalidade e sua postura diante dos fatos. Apesar dessa aparente falta de gênero, ela tem plena consciência de sua identidade feminina e sabe que ter um título real e andar armada não a protege de sofrer abusos, sexual ou moral.

É uma personagem profunda e complexa. O interessante de seu arco até o momento na série de TV é que, apesar de todos os riscos e conflitos previstos, Brienne escolheu ser um cavaleiro, optou por desafiar as normas e escolheu a quem se aliar. Ela não foi forçada e nem manipulada a chegar até ali. Tudo que ela faz é por sua escolha própria.

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Cersei Lannister

Uma personagem central do argumento de Game of Thrones, mesmo sem nunca se sentar em referido trono, é Cersei Lannister. Pertencente à rica e poderosa família Lannister, ela foi casada com o rei dos sete reinos. Consequentemente, seu filho também se tornou o rei. Cersei tem uma vida de privilégios, porém ela já deixou claro que nunca conseguiu aquilo que ela mais deseja: o controle sobre sua própria vida algo que, segundo ela mesma, “só poderia conseguir sendo homem”. Sua vida é guiada pelo poder (se há alguém que completamente concentrado neste jogo dos tronos é Cersei). Ela também é uma das únicas que quebra os tabus da sexualidade feminina reprimida em Westeros, admitindo seu poder de sedução e seu gosto pelo sexo. Costuma, inclusive, fazer uso da sua sexualidade para ajudá-la a ganhar ou manter seu poder sobre as peças do jogo.

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DaEnerys Targarien

Um texto sobre as mulheres de Game of Thrones não estaria completo sem mencionar essa garota. Daenerys Targarien é o rosto mais famoso da série e representa muito bem a força que as personagens femininas ganharam entre as páginas e a TV. Também chamada de Khaleesi, “rainha” na língua Dothraki, ela é um exemplo de como alguém pode ser forte sem ser fisicamente capaz de entrar em uma batalha. Sua jornada começa sob o domínio de seu irmão, que a vende para o rei dos Dothraki em troca de um exército. Porém, ao se tornar esposa de um líder bárbaro, ela aprende que pode adquirir poder para si mesma, e se adapta à cultura Dothraki em busca de seu objetivo. Com o passar dos capítulos, apesar de sofrer cada vez mais provações e tragédias, Khaleesi se torna mais forte e determinada a tomar o trono dos Sete Reinos. Nesse caminho, ela aprende que herdou a genética de dragões de sua família e se torna “mãe” de três dragões.

Daenerys tem um “quê” de justiceira, mas ela não é retratada como uma salvadora pura e inocente. Há uma certa sujeira realista deixada no rastro de suas conquistas e conflitos graves em suas decisões. Ela confia em seus dragões para incendiar o que for preciso pelo caminho, mas simplesmente porque uma espada é pesada demais. E isso não tira o crédito de todo o trauma que ela não só sobreviveu, como superou de cabeça erguida. Khaleesi é durona, e permanece obstinada sem perder sua compaixão ou sua feminilidade.

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Arya Stark

Arya Stark, filha caçula do rei do norte, surge na série como uma das crianças de Winterfell. Uma menina impetuosa de 9 anos, Arya rejeita tudo o que sua irmã Sansa adora: bordado, dança e histórias românticas. Em vez disso, ela luta com espadas de madeira com seu irmão mais novo, Bran e, mais tarde, aprende a lutar com uma espada de verdade dada a ela por seu meio-irmão, Jon Snow. A menina já rejeita as construções sociais de feminilidade e papéis de gênero, apesar de sua pouca idade. Assim como Daenerys, Arya é marcada por tragédias e passa a descartar seu privilégio social como um membro da nobreza, escapando da capital Porto Real disfarçada de menino camponês. Ela parece instantaneamente confortável em sua nova identidade e, apesar de se concentrar na vingança contra aqueles que destruíram sua família, ela sempre demonstra um desejo de encontrar um lugar onde seja aceita como é.

Estes foram quatro exemplos, mas Ygritte, Ros, Osha, Melisandre, Sansa, Margeary, Catelyn, Talisa e Shae têm tanta importância quanto elas. Não são esteriótipos, nem arquétipos. Se despejarmos nossas esperanças feministas em qualquer uma delas, até mesmo em Daenerys Targaryen, provavelmente vamos acabar nos decepcionando. Contudo, quando comentamos sobre querer ver “personagens femininas fortes”, é disso que estamos falando. Não um exército de super-heroínas, ou mulheres maravilhosas sem vida amorosa complicada ou falhas morais, mas uma variedade de seres humanos complexos, problemáticos e talvez não muito confiáveis.


Letícia Souki é jornalista, pós-graduada em processos criativos e fã de ficção científica e seres fantásticos.


Este é mais um post da série sobre a revolução dos personagens femininos na TV. Veja as matérias anteriores:
– A Revolução Feminina Será Televisionada
– Séries de TV: Um Grande Momento Para Ser Mulher
– Mulheres Mais Velhas Na TV, a Conquista

9 Responses to “As mulheres de Game of Thrones”

  1. Amanda

    Cersei Lannister pode parecer uma mulher forte, porém quem leu sabe a decepção que ela veio a ser.
    Mas concordo que ela é merecida de citação. :)

  2. ESter

    Bacaninha o texto, mas essa parte: “Ao transferir as histórias de Westeros das páginas para as telas, os criadores David Benioff e D. B. Weiss tomaram uma decisão que mudaria os rumos da narrativa: dar mais destaque às personagens femininas.” mostrou que a leitura do livro foi um tanto superficial.
    A série chega a ser misógina em certos pontos enquanto que nos livros nós temos uma infindável gama de situações e personagens femininas fantásticas assim como personagens masculinos fantásticos.

    Flor, super recomendo ler com bastante atenção, pq se tu se empolgou com a forma que as mulheres são retratadas na série, vc vai ficar emocionada com o quanto o GG foi descente e criativo. o/

  3. Cecilia

    Gostei muito do texto, e gostaria de continuá-lo desenvolvendo uma análise sobre as outras mulheres citadas por você e outras deixadas de fora… vou usar o link para esta página como referência, pois direi que a leitura do texto começa aqui com as quatro mulheres talvez de maior destaque da saga.

  4. Patricia

    O mais legal das Crônicas de Gelo e Fogo pra mim é uma citação de fora da série. Algum jornalista perguntou ao G.R.R.Martin por que ele escrevia personagens femininas tão fortes quanto estas, e ele respondeu algo assim: “é que eu sempre pensei nas mulheres como seres humanos”.

  5. Karol

    Este era meu post dos sonhos, tenho até um rascunho aqui no wordpress! hahaha

    Adorei o texto, quando comecei a assistir a série, quase desisti, porque não aguentava ver tanto sofrimento das mulheres, especialmente da Daenerys. Mas tomei coragem de ver tudo e não me arrependi, porque as reviravoltas das mulheres valem a pena.

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