Precisamos falar sobre estupro

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A presidente Dilma Rousseff aprovou ontem (1º de agosto), sem qualquer veto, a lei que obriga os hospitais do SUS a prestar atendimento às vítimas de violência sexual. O que isso significa? A mulher violentada terá acesso a tratamento que combina auxílio psicológico, coleta de material para a realização do exame de HIV e medicação – entre eles, a pílula do dia seguinte, que deve ser tomada em até 72 horas.

Uma grande conquista para as mulheres, mas motivo de lamentação da Bancada Evangélica da Câmara. Liderados por Marcos Infeliciano, os deputados acreditavam que o trecho da lei que dizia que os hospitais devem prestar serviço de “profilaxia da gravidez” era pura apologia ao aborto. Despreparados que são, não sabem que as vítimas de estupro JÁ têm o direito de interromper a gravidez e o procedimento é garantido pelo SUS.

Precisamos falar de estupro, porque é desconcertante constatar que esses senhores, protegidos por suas religiões, não sabem o que é essa violência e continuam a perpetuar mitos sobre o assunto. Dia 28 de julho, o Padre Joãozinho escreveu no Twitter que estupro era relativo. “Onde está a definição de estupro?”, disse. AQUI, seu Padre, veja se está bom para você:

Art. 213.  Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso. Pena – reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos.
§ 1o  Se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave ou se a vítima é menor de 18 (dezoito) ou maior de 14 (catorze) anos: Pena – reclusão, de 8 (oito) a 12 (doze) anos. § 2o  Se da conduta resulta morte: Pena – reclusão, de 12 (doze) a 30 (trinta) anos.”

Ontem, magoado com a sanção presidencial da lei que garante atendimento às mulheres violentadas, Infeliciano entulhou seu Twitter com desinformações. O deputado, por exemplo, não acredita que exista sexo sem consentimento dentro do casamento. Pois extra, extra: estupro acontece dentro de casa sim!!! E muitas mulheres podem nem saber ou entender a violência a que estão sendo submetidas, pois políticos como ele disseminam ignorâncias como essa. Estupro – infelizmente – pode acontecer em qualquer lugar, com qualquer pessoa, inclusive homens. O governo e a sociedade, que não foram capazes de consertar a raiz do problema, são responsáveis por, no mínimo, remediar as consequências.

Depois que lançamos a campanha Chega de Fiu Fiu, contra o assédio sexual, recebi diversos depoimentos de mulheres que foram intimidadas nas ruas. Um deles contava uma história que foi além do terrível “ô, gostosa”. A Bruna relatou, em um e-mail dolorido de ler, o estupro que sofreu aos 19 anos. Reproduzo aqui:


Eu morei a minha vida toda em cidade grande. Nunca tinha sido sequer assaltada. Quando, aos 19 anos de idade, eu mudei pra uma cidade pequena pra estudar, eu acreditei piamente no que todos diziam: “aqui não tem crime! Não acontece nada! Pode andar sossegada, bixete, que a taxa de criminalidade é zero!”. Por isso, quando faltou dinheiro pro táxi e eu estava muito cansada pra esperar uma carona, eu não hesitei e resolvi voltar a pé de uma festa. Afinal, cidade pequena de interior… Não há problema algum nisso! Todo mundo faz!

Esse foi o maior erro da minha vida. 

Quando eu estava a dois quarteirões da minha casa, um homem com uma arma se aproximou. Ele estava com o rosto coberto com um pano e só seus olhos apareciam. Ele queria dinheiro e eu não tinha. Na bolsa, uma nota de R$ 2, uma máquina fotográfica e um celular. Eu ofereci, mas ele recusou. Ele queria outra coisa. Ele disse que tinha visto minha calcinha. Fez com que eu ficasse de costas pra ele, olhando para o muro de uma casa. Subiu meu vestido e disse que ia gozar e que depois iria embora.

Eu rezei tanto, mas Deus não me ouviu. Eu queria mais que tudo que um policial passasse ali, que alguém acordasse e fosse na rua. Eu queria morrer. Eu queria tanto que ele me matasse com aquela arma, atirasse e eu jamais teria de suportar aquela dor. Eu pensava nos meus pais e na dor que eles sentiriam caso eu fosse assassinada. Pensava que minha irmã… Mas eu queria morrer!

Não pude reagir porque não queria causar esse sofrimento a minha família. Mas eu rezava pra morrer, já que aquilo estava acontecendo e não ia parar! Esse foi o momento que eu percebi o quanto eu os amo e faria qualquer coisa por eles. Porque se eu achasse que eles superariam isso, eu teria reagido, corrido, morrido.

Nada no mundo vale aquilo, nada! A saúde mental deles pela minha foi a “troca” que eu fiz! Por que Deus não me ouviu? Por quê? Pra quem é ateu ou não-religioso, isso pode não ter importância! Pra mim, teve toda importância do mundo! Eu sempre fui religiosa e eu briguei com Deus nessa hora! Rompi com Ele, na verdade. Hoje, estamos retomando nosso relacionamento, mas não acredito em um mundo sem injustiças mais! Porque eu fui injustiçada! Eu me senti abandona por Deus!

Quando ele “terminou”, ele disse que a culpa era minha, que ele só queria dinheiro, mas que eu era muito gostosa, que ele não resistiu. Ele disse que eu tinha de perdoar ele e apontou a arma na minha cabeça e disse que se eu não dissesse que eu perdoava ele, ele me mataria. Então eu disse “Eu te perdôo!” e fui embora…

Há 7 anos eu tenho um transtorno psiquiátrico que se chama Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Esta é uma condição na qual a pessoa que sofreu um trauma – no meu caso, o estupro – revive aquele momento sempre. Acordo a noite aos prantos sonhando com o momento, com aquele homem nojento. Parece que ouço ele gemendo às custas do meu corpo frágil e impotente contra aquela arma. Sinto o cheiro do suor e de álcool que ele exalava. Sinto o frio da arma na minha cabeça me paralisando.

Tem uma parte de mim que ainda me culpa, que diz que eu não deveria estar naquele lugar, naquela hora, com aquela roupa. Porque o machismo é tão forte que ele comanda a vítima! Mas hoje eu vejo que o único culpado foi ele! Ele que reproduziu esse modelo pronto e estúpido de machismo. Ele não questionou o que ensinaram pra ele! Ele nunca elaborou um pensamento quanto a isso. Ele que me viu como um pedaço de carne e não como uma mulher, que tem sonhos, vontades e desejos! Ele é um criminoso e eu sou a vítima! Isso pode parecer óbvio, mas não é assim que as pessoas em geral vêem.

Eu – infelizmente – não tive a coragem necessária para procurar uma delegacia e me submeter a um exame de corpo de delito. Eu só queria tomar banho e esquecer que tudo aquilo tinha acontecido! A verdade é que se eu pudesse, eu voltaria atrás e não andaria naquele lugar com aquela roupa. Mas a verdade maior ainda é que nós deveríamos poder andar como quisermos e termos segurança pra isso!

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.

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14 comments on “Precisamos falar sobre estupro

  1. Mari
    2 de agosto de 2013 at 14:00

    Nossa, q horrível.
    Mas curioso como a nossa cabeça é condicionada a minimizar esse tipo de coisa… Comecei a ler e pensei “ah, mas ele não chegou à penetração” mas, conforme foi continuando, me coloquei no lugar e eu iria me sentir mal, com nojo e horrorizada da mesma forma. Pq o assédio moral e psicológico é uma coisa que detona com a gente. O cara ainda termina colocando a culpa na vítima, só pra piorar, me causa revolta de ler, mal estar. É triste ver como tem tantas pessoas que não fazem a menor questão de se colocar apropriadamente no lugar do outro, não enxergar como as coisas são.

    • Olga
      2 de agosto de 2013 at 14:03

      Mari, disse tudo. Estou dando espaço para esses depoimentos para tentar cavar empatia nas pessoas. Quem não se revolta, não sente nojo, nem raiva é psicopata. Só pode ser.

    • Nat
      2 de agosto de 2013 at 15:27

      Não que a penetração defina a humilhação ou o trauma, ou o modo como SUBJETIVAMENTE cada um vive um estupro, mas não tem nada no texto que diga que NÃO teve penetração também.
      Inclusive quando eu li, o tempo todo tive a impressão que teve, até pelo comentário final lamentando não ter feito um corpo delito.

      • Bruna
        2 de agosto de 2013 at 15:50

        Sim, teve! O depoimento é meu!

  2. Camila Honorato
    2 de agosto de 2013 at 14:17

    Muito forte! Quase não consegui ler o relato inteiro dela.
    É absurdo que essa bancada evangélica e esses machistas de plantão ainda se sintam no direito de questionar o crime que é o estupro, de dizer que esse conceito é relativo, de dizer que a culpa é da mulher pela roupa e pelo comportamento, de dizer que a mulher não tem o direito de abortar um feto por se tratar de uma “vida indefesa que ainda não tem o direito de decidir”. E a vida da mulher, como fica? E o trauma? E o medo?
    É absurdo demais. Nascer mulher, em certos momentos, é muito doloroso! E não deveria ser assim de forma nenhuma! Um basta pra essa sociedade machista e esses crimes absurdos. Nada é pior do que andar na rua com esse medo. Infelizmente, estamos todas sujeitas a esse tipo de violência.
    Que a luta pra mudar tudo isso continue!

  3. Mari
    2 de agosto de 2013 at 20:05

    Depoimento muito forte, e muito necessário. Enquanto qualquer mulher, com qualquer roupa, em qualquer lugar, estiver sujeita a esse tipo de violência simplesmente por ser mulher, a gente não pode jamais se calar nem achar que essa é a ordem natural das coisas. E fica clara a importância de debater isso com outras mulheres, porque, infelizmente, há mulheres que incorporam o discurso machista sobre “se dar ao respeito” e “a roupa que você usa”. Assim como todas nós, mesmo sem perceber, muitas vezes acabamos incorporando o discurso da culpa, como a Bruna corajosamente disse. Muita força e toda solidariedade à autora do depoimento, porque é difícil imaginar o que é sobreviver e seguir com uma dor dessas. Nessas horas, deve valer a palavra de ordem feminista “mexeu com uma, mexeu com todas”, sempre.

    • Eliangela
      2 de agosto de 2013 at 21:08

      concordo perfeitamente com vc, as mulheres tem que se unir contra esses vagabundos machistas, homem que e homem sabe respeitar uma mulher mesmo estando nua, olhando para o utro lado ou oferecendo sua camisa para ela se cobrir, o tipo de roupa que uma mulher veste nao justifica a canalhice de um “homem” nao, homem entre aspas, porque isso nao e homem e apenas um macho

  4. Eliangela Carvalho
    2 de agosto de 2013 at 20:46

    INFELISMENTE O MUNDO E TAO MACHISTA, SEMPRE CULPA AS MULHERES POR TUDO. A MULHER PODE ATE ESTA DORMINDO, SE UM VAGABUNDO DESSES VE, JA TEM QUE ABUSAR DELAS E DEPOIS TEM A CARA DE PAU DE DIZER QUE ELA E CULPADA, QUE O PROVOCOU, E A MAIORIA DAS PESSOAS AINDA OS DEFENDE. HOMEM QUE E HOMEM JAMAIS FARIA QUALQUER COISA COM UMA MULHER, MESMO VENDO ELA NUA, E QUESTAO DE CARATER. EU QUERIA SABER PORQUE AS PESSOAS ACHAM QUE MULHER NAO TEM DIREITO A NADA, SE O HOMEM TEM DIREITO DE SAIR, PASSEAR, CURTIR A VIDA, AS MULHERES SAO HUMANAS COMO QUALQUER HOMEM, E TEM ESSE MESMO DIREITO. MAS INFELIZMENTE ELES AINDA ACHAM QUE AS MULHERES SAO DE OUTRO PLANETA QUE ESTA INVADINDO O ESPAÇO DELES, E NAO AS RESPEITAM. ESSES MISERAVEIS NUNCA ENFRENTAM UMA MULHER SEM UMA ARMA NA MAO, SO E MUITO MACHO COM UMA ARMA PARA AMEAÇA-LAS, QUERIA SABER QUE ESPECIE DE HOMEM E ESSE QUE SO POR VER UMA MULHER COM DETERMINADA ROUPA ELE TEM QUE ABUSAR DELA, E ESSES CRENTINHOS DE MEIA TIGELA TINHAM QUE SER ESTUPRADOS PRA SENTIR NA PELE O QUE E PRA UM MULHER SER ABUSADA, ESSES QUE SE ATREVE CULPAR A VITIMA PELO ABUSO E PIOR DO QUE O ABUSADOR.UMA ROUPA PROVOCANTE NAO JUSTIFICA TAMANHA CRUELDADE COM QUEM ESTAVA APENAS ANDANDO PELA RUA SEM FAZER MAL HOMEM ALGUM. EU NAO CONCORDO COM ABORTO DE FORMA ALGUMA, MAS NAO DEVERIA DE FORMA ALGUMA TAMBEM EXISTIR ESS TIPO DE VIOLENCIA, ISSO SO ACONTECE PORQUE HOMEM ESTA EM EXTINÇAO, MACHO EM QUALQUER ESQUINA QUE VC VAI, VC VE UM CACHORRO, MAS HOMEM DE VERDADE E RARO SE VE. MAS PRA MIM ESTUPRADOR, O CASTIGO DELES NAO E CADEIA NEM A MORTE, O CASTIGO PERFEITO PRA ELES E CORTAR O SACO E JOGAR FORA, AI EU QUERO VER ELE ESTUPRAR MAIS ALGUEM, AFINAL DE CONTA NEM NA CADEIA ELES FICAM MESMO, E MAIS FACIL A VITIMA SER PRESA DO QUE CRIMINOSO, COMO ELES DIZEM, E A MULHER QUE E CULPADA

  5. Kamila
    6 de agosto de 2013 at 03:11

    Bruna, estamos juntas! Mexeu com uma mexeu com todas! Força para a gente continuar lutando! Beijos!

  6. Ivone
    6 de agosto de 2013 at 22:13

    Com ou sem penetração, houve crime, é bárbaro, cruel e desumano de qualquer forma.

  7. Thacylla Mendes
    9 de setembro de 2013 at 19:16

    Depoimento muito triste o da Bruna. Esse homem é muito asqueroso. Criminoso!

  8. Karol Cantanhede
    10 de setembro de 2013 at 20:54

    Meu deus Bruna. Isso foi horrível cara. Muita coragem da sua parte em enviar este relato para o site. Eu sempre leio essas coisas, e eu fico extremamente revoltada com isso, me causa o maior mal-estar de não poder fazer nada pela pessoa em questão, que sofreu o abuso. Se fosse tua irmã, ou alguma parente tua eu teria ido até o inferno, pagado nem que fosse uns 500 reais pra um marginal bem pesado da cidade, e mandaria no mínimo fazer a mesma coisa com ele, e matá-lo cruelmente no fim. Sei que isso seria uma onda de violência, que não ia parar, e vcs iam viver permanentemente no medo, mas seria uma coisa que eu faria. Mas como não posso, aqui fica, neste comentário revoltado, o meu ódio, repulsa e nojo contra esse bandido miserável (tomara que ele morra), revolta contra esses religioosos alienados e raiva destas pessoas que falam isso das roupas. Véi, num sei nem como se segue a vida direito assim, mas desejo o que há de melhor pra você e pra sua família. E se você era religiosa, ou ainda é ou algo assim, não se culpe e nem culpe a Deus. Infelizmente, o mal às vezes (ou maioria das vezes), anda na frente do bem, e tudo o que o diabo quer, encarnado na pele desse dêmonio desse ladrão, é que uma “crente” vire descrente, e perca as forças e a esperança de uma vida melhor. Mas você, pela pessoa forte que deve ser, não vai desistir, e continue sua vida adiante, vença na vida, é tudo que os recalcados odeiam. Sem mais.

  9. Beth
    18 de setembro de 2013 at 01:59

    Credo!
    Fiquei muito mal!
    Estou conhecendo o blog hoje e me identifiquei com os assuntos.
    É um absurdo nós mulheres nos sentirmos culpadas por tudo! Nossa criação e nossa sociedade nos fizeram ser assim.. sempre a culpa dos problemas é nossa!! E nós acreditamos nisso!!!
    NÃO! Não é! Porque mesmo se a Bruna estivesse com duas calças jeans, menstruada, gola alta cabelo preso em coque e às 10 horas da manhã em um local movimentadíssimo o mesmo poderia ter acontecido! Com qualquer uma de nós!
    Acho ridículo sermos julgadas pelo que nos vestimos ou o que fazemos. Não posso sair de blusa justa porque está se expondo, decote, saia. Não podemos gostar de sermos mulher. Temos que andar na rua com medo de encontrar algum tarado, de mudarmos nosso caminho por ter medo de passar em determinado lugar. Já cansei de atravessar a rua e mudar de calçada só porque achei que ia cruzar com um caras esquisito. Sinto ódio da sociedade quando me sinto assim.
    Nunca morei em uma cidade grande, sempre no interior e sempre tive essa cautela. Mas, na época da faculdade todas as pessoas que vinham de cidades maiores sempre tinham essa ilusão de que ali não existiam pessoas más e nojentas. O problema que em qualquer parte do mundo vão existir homens que acham que podem tudo.
    Sinto asco dessa criatura que fez isso à Bruna! A culpa é dele e toda dele..

  10. Tati
    19 de setembro de 2013 at 04:29

    Tive dificuldades em continuar a ler, porque a Bruna conseguiu transmitir em palavras o horror que ela passou, eu fiquei chocada, mesmo sabendo que isso não é um caso a parte, que a cada doze segundos uma mulher é vitima desse tipo de violência. Bruna, entendo que você de certa forma se sinta culpada, porque essa cultura nojenta, que sempre culpa a vítima está tão enraizada na nossa sociedade que nós mesmos nos culpamos inconscientemente. Mas Bruna, jamais se sinta culpada, jamais. A culpa NUNCA é da vitima.

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