Um detonado sobre o machismo nos games

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Quando tinha 16 anos, entrei em um jogo de estratégia online –  nele o jogador precisa desenvolver uma tribo, formar alianças e competir pelo domínio do servidor. Fiquei viciada. Passava horas jogando, traçando conspirações, desenvolvendo minhas cidades e programando batalhas. Tornei-me general da minha aliança, uma posição de importância crucial. Um belo dia, entrei no fórum do jogo e vi que havia uma enquete para eleger o jogador mais ‘temido’. Os candidatos estavam chamados de “Zézinho, o terrível gaulês” ou “Léo16, o sanguinário teutão”. Eu era a única jogadora (leia-se a única mulher) listada na votação. Minha descrição? “A doce romana”. Eu havia devastado cidades virtuais, saqueado alianças inteiras e era responsável pelo extermínio de vários jogadores. E era vista como doce. Ganhei a eleição – provavelmente só para provocar os outros jogadores listados ali, uma piada.

Parece um exemplo bobo, mas serviu para abrir meus olhos em relação ao que acontecia com garotas nesses jogos. Mudei de gráficos com outros games, mas o cenário era bem parecido. Em outra franquia  meu avatar era obrigado a usar roupas decotadas que nem de longe pareciam adequadas para a batalha. Minha personagem se protegia com uma espécie de sutiã de jade que mal tapava os mamilos (as opções eram sutiã de opala, de rubi, de ônix…). Tudo para preservar as tão valorizadas curvas exageradas com as quais a maioria dos títulos retratam suas personagens.

Em jogos de tiro, recebi cantadas e esculachos de jogadores de 10 a 40 anos ao usar um headphone para me comunicar com minha equipe. Era só uma voz feminina soar no grupo para que a atitude deles mudasse. Descobri que ‘tinha que ser mulher’ não é frase ouvida apenas no trânsito – basta levar um headshot. Ao comentar sobre games na escola e na faculdade via rapazes revirando os olhos por ‘eu não saber do que estava falando’ e moças achando que eu só tocava no assunto para chamar a atenção masculina. Será que já cunharam o termo nerdshaming?

Não é implicância minha, nem sou uma jogadora assim tão ruim para justificar a reação. Não sou a única que passa por isso – nem de longe, infelizmente. A revista New Media & Society publicou um estudo que revela que, ao comentarem coisas neutras (do tipo ‘oi, pessoal’) no headphone durante uma partida de Halo, mulheres recebem 3 vezes mais respostas negativas do que homens.

Recentemente, li uma entrevista com uma das roteiristas da franquia Bioshock, Susan O’Connor, que também participou do time de criação de Lara Croft e tem mais de 10 anos de experiência no mercado. Durante a conversa com o repórter ela se refere ao jogador sempre como uma figura masculina. Isso chama a atenção do jornalista que pergunta a ela “mas e a perspectiva feminina nos games?”. Susan então revela que nunca viu uma garota ser chamada para testar um game na produtora do Bioshock, a 2K Games. Logo depois é discutida uma personagem feminina do jogo Leisure Suit Larry que foi desenvolvida com uma história interessante, tem uma personalidade diferente, um prato cheio para uma roteirista… mas tudo para que, uma hora, o jogador fique ainda mais interessado em fazer sexo com ela. E então Susan revela que está cansada da indústria. “Não sou tão apaixonada por games para ignorar essas coisas sobre as quais discutimos”, confessa.

Se o machismo da indústria dos games é capaz de afastar uma roteirista com 10 anos de experiência, uma garota que está apenas começando a se interessar e sente tamanha resistência ao tentar entrar nesse mundo desiste sem pensar duas vezes. Acho que a maior prova de como o grupo dos gamers é fechado é o meme Idiotic Nerd Girl. Ele consiste em zoar meninas que por serem bonitas, ou populares, ou pegarem a crista da onda na moda de algum game, não teriam direito de participar de comunidades geeks por não serem nerds “de verdade” (suspiro).

Vamos pensar direito sobre o que esse meme realmente diz?

olga gamers

Então a cultura nerd é machista? Mas eles também não eram minoria há alguns anos?  

O estereótipo do nerd, alguns anos atrás, era o menino emocionalmente e fisicamente frágil, extremamente introvertido, que só tirava nota boa na escola. Hoje, o cenário é bem diferente –  alunos tímidos e CDF viraram magnatas, ser nerd ou geek é visto como uma coisa boa e tem um apelo cada vez maior. Mas os próprios nerds não gostam dessa popularização. Há aqueles que acham que suas paixões, antes exclusivas desse grupo, estão sendo ‘roubadas’, como se ficassem menos nobres com um maior número de fãs. E aí entram mulheres que, ao se aproximarem desses domínios, são ridicularizadas por sua falta de habilidade ou conhecimento.

Vale lembrar que a popularização da figura do geek coincide também com uma maior liberdade feminina em relação à cultura e à tecnologia. Em lojas especializadas, vemos pais comprando quadrinhos e games para as filhas. No ‘meu tempo’, quando meu pai me levava para comprar cartas de Magic The Gathering, eu cheguei a ser olhada com espanto por vendedores. Mas, mesmo hoje, nem sempre nos é dada a opção de fazer parte disso – de várias formas, como as citadas acima, somos encorajadas a perseguir interesses considerados ‘mais úteis’ ao universo feminino. Não é como se não gostássemos de games, quadrinhos, ficção ou qualquer outro elemento nerd. É que poucas meninas têm contato com esses produtos e menos ainda são aquelas encorajadas a cultivar sua relação com eles. 

Gosto de acreditar que esse cenário está mudando. Na última conferência E3, a Nintendo revelou que a normalmente frágil Princesa Peach, cujo papel na maioria dos jogos é ficar esperando Mario resgatá-la, será um personagem jogável em Super Mario 3D World. Sim, ela ainda é uma princesa, ela ainda usa rosa. Mas ela já consegue matar monstros sozinha e acompanhar os encanadores italianos numa boa*. Há quem diga que a ideia da Nintendo é trazer mais meninas para a série – acho que não há necessidade disso. Os títulos da franquia  sempre tiveram um grande contingente de adeptas. Penso que se trate, realmente, de uma maior conscientização sobre a forma com que mulheres são representadas.

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A verdade é que que cada um, homem ou mulher, tem seu tempo. Da mesma forma que a filha de uma amiga descobriu como baixar apps com 4 anos de idade, minha mãe descobriu o Call of Duty só depois dos 50 (e detona muito moleque no jogo). Isso mostra que a pequena quantidade de mulheres ou o tempo de contato menor não significa que somos menos apaixonadas pelas causas nerd. Se você, homem, se considera um conhecedor profundo de algum produto cultural, significa que você precisou estudá-lo, gastar tempo nele. Você também já deu mancada antes de acertar. E, sim, também já foi xingado de noob, dentre outras coisas. Mas ninguém te julgou menos capaz por ser um homem. Um hora, seu conhecimento cresceu e você foi reconhecido por isso.

Dê crédito às mulheres, tanto às que nasceram jogando videogame quanto às que descobriram ontem a paixão por Star Wars. Dê a elas a oportunidade de descobrirem seus gostos, sem envergonhá-las por ainda não terem tantas informações ou habilidade. Se você é geek hoje, você já foi um noob. Dê a mesma chance para qualquer um, homem ou mulher, que quiser trilhar o mesmo caminho.

Quer se aprofundar no assunto? Recomendo fortemente a série Damsel In Distress da vlogger Anita Sarkeesian (Feminist Frequency).

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=X6p5AZp7r_Q]

A história da própria série de vídeos já é digna de nota – ela apelou ao Kickstarter para arrecadar fundos e produzir seus vídeos sobre o modo com que mulheres são retratadas nos games. E, ao lançar a campanha, se tornou alvo de bullying. Ela compartilha essa história em sua palestra no TED sobre garotas, games e machismo.

*Em 2006, foi lançado um game de Nintendo DS que trazia Peach como personagem principal “Super Princess Peach”. No episódio, Peach é que devia salvar Mario. Mas por se tratar de um título separado da série de games convencional, com o marketing voltado para garotas, o apelo dele entre os homens não foi memorável.


Luciana Galastri é repórter do site da revista Galileu. Se a vida fosse como um navegador, a sua se alternaria entre as seguintes abas: internet, games e literatura.

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.

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9 comments on “Um detonado sobre o machismo nos games

  1. Rogerio Fratin
    2 de julho de 2013 at 19:14

    Luciana, meus parabéns.
    Impressionantemente bom tudo.
    E, por favor, prossiga com esse projeto =)
    [ ]s!
    Fratin

  2. Dudi
    23 de julho de 2013 at 04:02

    Olá Olga 🙂

    Acabei de conhecer o blog, e estou gostando muito! Parei pra comentar aqui pois o subtitulo “Mas eles também não eram minoria há alguns anos?” me chamou a atenção. Ainda que os Nerds tenham passado por uma ascensão, é inegável que minorias também excluem. Um exemplo: Gays excluem caras que não tem um “corpo perfeito”, então formou-se um gueto dentro do gueto, os Ursos. Mas dento desse sub gueto também há exclusão, Ursos precisam ter postura masculina, ser “homem de verdade”, lamentável.

    Só uma nota sobre Princesa Peach: ela é jogável em “Super Mario Bros 2” (1988); Além disso, o primeiro chefe do game é Birdo, uma personagem transexual. I ♥ SMB2!

    Beijo, Dudi.

    • Olga
      23 de julho de 2013 at 09:00

      Oi, Dudi. Tudo bem?

      Obrigada pela visita. Fico muito feliz em saber que você gostou dos posts. Faz todo o sentido o que você falou dos “guetos” dentro das minorias. Mas espero que possamos virar o jogo para as mulheres dentro desse mundo. 🙂

      E é verdade sobre a Princess Peach ser jogável no Super Mario Bors 2, de 1988. Por isso, fizemos a ilustração dizendo “25 anos depois…”. Não parece que faz tanto tempo, mas é. Pensemos: uma geração inteira não pôde jogar com a princesa até hoje (tirando o Mario Kart, claro).

      Volte sempre, Dudi. Vamos debater mais games por aqui em breve!
      Beijão!

  3. brunobelo
    23 de julho de 2013 at 11:42

    Muito bom o texto, pega na veia vários pontos da cultura nerd, que é machista, sexista e bastante conservadora. Uma vez as meninas do Girls of War, um blog de meninas dedicado a jogos, perguntou o que a gente achava de a executiva do xbone ser mulher. Minha resposta foi algo como “os gamers nasceram sentados em privilégios e, agora, têm medo de perdê-los. Nada que não fosse esperado. :-“. Isso foi o suficiente pra um “espertinho”, menos de 5 minutos depois, dizer algo como “nunca li tanta besteira em minha vida”. Óbvio, ele provou que eu estava certo ao fazer isso, mas duvido que ele sequer tenha percebido…

    Enfim, parabéns pelo artigo, muito bom, muito boas as reflexões e vc realmente tem razão em tudo que diz aí em cima.

    E eu sou fanzaço da menina do feminist frequency, acho tudo que ela fez fantástico!

  4. lainshy
    27 de julho de 2013 at 01:16

    Quem nunca teve que “se fingir de homem” em jogos online? Ou quem nunca teve que fazer personagens masculinos só pra não ter que ficar olhando pra “moçoilas de armadura-biquini”?

  5. Francisco
    30 de julho de 2013 at 18:10

    Realmente tem muito machismo nos jogos, mas temos alguns exemplos que estão mudando um pouco isso.
    Em Mass Effect e Dragon Age você escolhe se seu personagem será mulher ou homem, e em ambos as armaduras das mulheres são compatíveis com o campo de batalha da história.
    Além do mais em ambas as histórias a diversas personagens femininas secundárias que assumem papéis muito mais relevantes que os dos personagens masculinos secundários como em Dragon Age II e Mass Effect 2 (embora a recíproca seja verdadeira também, ou seja, personagens secundários masculinos relevantes).

    Mas é claro, os exemplos ainda são poucos: bioshock infinite seria outro, dentro de certos limites, a série tomb raider (que já ouvir dizerem que é machista por a personagem ser bonita, com o que eu discordo. Até agora o único protagonista de história feio que conheço é o Tyrion Lannister, seja homem ou mulher), acho que Catherine, e mais alguns poucos.

  6. Thaís Albuquerque
    15 de agosto de 2013 at 18:16

    Ei Luciana!
    Acabei de conhecer o blog e já vi que vou passar umas boas horas nele! 🙂

    Onde vc leu a entrevista com a Susan O’Connor? Tem link? A entrevista deve ser bem interessante, fiquei com vontade de lê-la. 🙂

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