Não se esqueça de Nigella

olga pm

Os tiros de borracha, as bombas de gás, o vandalismo e a truculência que as ruas do Brasil registraram nos últimos dias reduziram a atenção de outra violência ocorrida recentemente: a vivenciada por Nigella Lawson. A apresentadora de um programa culinário de TV sofreu agressão de seu marido Charles Saatchi em um restaurante, na frente de todos os outros clientes e dos paparazzi, os responsáveis por trazer a história à tona.

Muitos conhecidos, irritados, me encaminharam a notícia. Entre comentários indignados e revoltosos, recebi um e-mail em que uma amiga me revelava ter passado por episódios semelhantes ao de Nigella. “Eu nunca contei pra ninguém porque durante muitos anos eu fiz pra mim que não era tão grave e que já tinha passado, mas eu tive um namorado que me agredia”.

Com o coração partido, percebi que nós – todos nós – falhamos com as mulheres. Diversos tipos de sexismo são vistos quase como naturais e a violência matrimonial ainda é tratada como caso privado. Quando eles acontecem, procuramos minimizar os fatos – o marido de Nigella, por exemplo, disse que o enforcamento era apenas uma “brincadeira”. Ou então culpamos a vítima, como se ela tivesse tendências masoquistas de escolher os homens errados. Nada pode ser mais covarde do que transferir o crime das mãos de quem o cometeu às de quem o sofreu.

Falhamos também porque tiramos a capacidade de compreender que qualquer agressão é inaceitável. Também para os homens, mas principalmente para as mulheres. Muitas vezes, não entendemos a profundidade da questão simplesmente porque nunca nos foi ensinado, de forma clara e direta, que não, isso não pode acontecer. Exemplifico: intimidação sexual nas ruas é, de forma óbvia, um comportamento inaceitável. No entanto, particularmente, só fui de fato entender o problema (e, mais importante, que era necessário falar sobre isso) há pouco tempo. Sofria calada porque não sabia me expressar, incapaz até mesmo de apontar o problema e como isso me incomodava.  

Por que isso acontece? A violência contra a mulher é uma questão que paira no ar, com uma leveza insustentável e incômoda. Apesar de já haver contra-ataques pesados contra o crime, sinto que falta uma educação primária, lá atrás, quando aprendemos a ser mulher. Alguém – escola, família – que nos explique que não é OK que alguém encoste em você contra a sua vontade. Da forma mais clara possível. E que para cada “ela deveria escolher melhor seus homens”, dez “isso é inaceitável” seja repetido. De novo e de novo e de novo. 

Existe um texto rodando a internet chamado Como Falar Com Meninas, que defende que adultos substituam a enxurrada de elogios relativos à beleza por bate-papos sobre o intelecto das crianças. Gostaria de incluir aí uma conversa sobre o corpo feminino, esse tabu que vive preso na contradição de altar, místico, virginal e intocável, e outra sobre a via pública, regida pela lei do mais forte, aberta a palpites de terceiros. Explique para suas filhas que nada disso deve ser a realidade e que seus corpos não pertencem a ninguém além de elas mesmas. E que ninguém – maridos, namorados, amigos, políticos – podem cruzar esse limite.

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.

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4 comments on “Não se esqueça de Nigella

  1. Júlia Morim
    20 de junho de 2013 at 14:02

    Essa é violência cotidiana. Ontem li no jornal duas notícias de atuais e ex que mataram suas companheiras. Absurdo!

    http://ne10.uol.com.br/canal/cotidiano/grande-recife/noticia/2013/06/19/homem-mata-exesposa-apos-mantela-refem-junto-ao-filho-426212.php

    http://tvjornal.ne10.uol.com.br/noticia.php?id=9095

  2. Nêmesis
    9 de agosto de 2013 at 20:27

    Um dos textos mais sensíveis que já li.

    Parabéns pelo site como um todo.

    • Olga
      9 de agosto de 2013 at 21:12

      Muito obrigada pelas palavras! 🙂

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