Menina de ouro

olga golden boy

“Por que você não lutou mais?, diz meu cérebro.
Doía muito, eu respondo. 
Sim. E por que você não lutou mais?
Eu não sei. Isso vai soar loucura, mas… Senti como se fosse um direito dele.” 

No recém-lançado Golden BoyAbigail Tarttelin conta a história de Max, o garoto de ouro da sua cidade. Bonito, atlético, inteligente e gentil, o adolescente guarda um segredo. Ele nasceu intersexual, condição em que a pessoa apresenta genitália ambígua. Aos 16 anos, no entanto, um amigo de infância que sabe a verdade trai sua confiança e o estupra. “A partir daí, Max percebe que seu corpo também tem capacidades femininas. E pensei que essa seria uma maneira eficaz de apresentar a percepção feminina da intimidação sexual”, diz.

Durante a jornada de Max, a escritora britânica de 25 anos faz um debate profundo e delicado sobre gêneros e como eles moldam nossa visão de mundo – assuntos que também permearam nosso bate-papo. Abby ainda falou sobre assédio nas ruas, a falta de liberdade com que as mulheres têm que lidar diariamente e a “ditadura do pênis”.

olga abby

Golden Boy conta a história complexa e dolorida de um adolescente intersexual. Por que decidiu falar sobre um tema tão delicado?

Fiquei mais consciente da intersexualidade e da dificuldade de viver em um corpo sem gênero em um mundo comprometido com a divisão binária de sexos depois de ver o filme argentino XXY, em 2009. Dois anos depois,  li o The Women’s Room, de Marilyn French, durante um verão em Camden [bairro londrino] e me peguei pensando sobre as suposições e expectativas que temos de todas as pessoas – mulheres, homens, transexuais – por causa de seus gêneros.

Um dia, acordei e escrevi um e-mail para mim mesma com uma cena em que Max e Danny [o personagem principal e seu irmão] conversam sobre ter filhos. Rapidamente, a história se formou em minha mente. Conforme pesquisava sobre intersexualidade, percebi que era um tema importante, principalmente no que diz respeito à perda de autonomia das crianças cujos médicos e pais decidem que a cirurgia de redesignação sexual é a solução para seu “problema”.

O livro é bastante informativo, com detalhes sobre a intersexualidade, explicações sobre a condição, cirurgias e outros procedimentos médicos. Como foi seu processo de pesquisa? 

Tive o cuidado de pesquisar o aspecto médico da situação de Max e os tratamentos indicados no Reino Unido naquele momento. As informações foram difíceis de encontrar: elas são muito conflitantes, já que os procedimentos mudaram dramaticamente ao longo dos últimos 15 anos e o apoio à intersexualidade ainda é um movimento em crescimento. No entanto, para o personagem Max, quis ter o mesmo método de construção de identidade que o dos outros personagens, independentemente do gênero, pois não é nosso sexo ou nossos corpos que nos fazem humanos ou passíveis de empatia.

Você disse que, ao escrever Golden Boy, descobriu blogueiros, alguns adolescentes, que estão bravamente subvertendo as velhas ideias de identidade de gênero. Como isso influenciou seu livro? 

Foi a partir da coragem dessas pessoas inspiradoras que tive uma certeza: esse tipo de romance e personagens heroicos são necessários na literatura convencional.

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Simone de Beauvoir disse que “não se nasce mulher, torna-se”. Você concorda? E como isso se aplicaria a Max? 

Pelas minhas experiências, acho que essa frase é verdadeira. Uma das realizações percepções que eu tinha antes de escrever Golden Boy é que eu não acreditava – e ainda não acredito – que os sexos são muito diferentes ao nascer. São nossas vivências no mundo, principalmente aquelas que temos enquanto crescemos, as responsáveis por moldar nossa identidade de gênero. 

Particularmente, os anos de intimidação sexual e passividade forçada, devido a normas sociais e anatomia, que as mulheres vivem é uma experiência completamente diferente da de um homem.  A partir dessa leitura, Max não pode ser descrito como uma mulher “feita”, “moldada”. Mas quando ele é violado por um estupro que resulta em uma gravidez indesejada, ele percebe que seu corpo também tem capacidades femininas. E eu pensei que essa seria uma maneira eficaz de apresentar a percepção femina da intimidação sexual. A compreensão de que seu corpo é pequeno (se comparado a de um homem) e que ela é incapaz de penetrar e de controlar a fertilidade, muda sua visão de mundo

Você fala sobre como os gêneros moldam nossas personalidades e nossas maneiras de ver o mundo. Uma das perguntas que você se faz, em seu site, é: “no geral, mulheres são menores e mais fracas fisicamente do que os homens. Será que convivendo anos com essa vulnerabilidade nos fez mais cautelosas?”. Você tem uma resposta para isso? 

Fiz essa pergunta já sabendo a resposta porque percebi que minhas amigas era mais cuidadosas do que meus amigos. Por exemplo, tenho um grande amigo que fez um passeio, sozinho, com um nativo do Panamá que carregava um facão de mato, em meio à floresta para fotografar espécies raras de sapos. Parece uma aventura maravilhosa, mas se eu tivesse feito exatamente a mesma coisa, soaria como a decisão mais estúpida que alguém poderia tomar. É com essa falta de liberdade que mulheres têm de lidar diariamente- um fator que muda nossas vidas conforme nos tornamos adultas.

Você, que cresceu em uma cidade pequena da Inglaterra, conta que só foi experienciar assédio nas ruas quando se mudou para Londres. Essas situações de intimidação influenciaram sua personalidade de alguma forma?

Essa é, com certeza, uma das maiores influências na construção de Golden Boy. Quando me mudei para Londres, vinda de uma pequena cidade, vivenciei tanta intimidação sexual nas ruas que fiquei deprimida e não queria sair de casa. Saber que os homens podiam me tratar daquele jeito sem que eu desse qualquer tipo de permissão foi minha primeira experiência com esse tipo de agressão e isso me destruiu. No entanto, eu não compreendia direito esses sentimentos até ler The Women’s Room, já um pouco mais velha. Foi aí que eu entendi que a desigualdade de gêneros não se tratava apenas de leis ou grandes movimentos sociais, mas também de ofensas do dia-a-dia que geram tristeza, raiva e vergonha.

Max, um intersexual que vive como menino, vive um estupro, gravidez não-planejada e aborto – problemas que preocupam as mulheres assim que têm a primeira menstruação. Mas como você acha que a jornada de Max vai ressoar aos ouvidos dos homens? 

Minha expectativa era a de que os homens que lessem o livro tirassem algum insight da história de Max. E fico contente em saber que aqueles que leram o livro, gostaram da história e compreendem as questões ali propostas.

Em entrevista à Interview Magazine, você conta que, ao ser abordada por um menino de 12 que disse “eu quero te comer, moça”, teve uma luz e entendeu do que se tratava a “ditadura do pênis”. Conte um pouco.  

Foi um momento decisivo para a minha compreensão do assédio sexual e da cultura do estupro. Simplesmente porque esse rapazinho tem o equipamento para me intimidar, ele se sente no direito de fazê-lo. E eu entendi que o contrário, responder algo como “não, eu que vou te comer!”, não funciona, pois eu não tenho como! Acho que essa pequena diferença na anatomia humana é a maior e mais importante diferença entre homens e mulheres. Mulheres ganham esse papel de vítima passiva por conta do seu próprio corpo e, os homens, o papel ativo. Claro que não tenho a resposta para essa charada ainda, mas sinto que isso é algo que só pode ser resolvido fazendo escolhas como animais civilizados que vão ampliar a natureza das relações entre nós.

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.

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4 comments on “Menina de ouro

  1. biazacha
    5 de junho de 2013 at 02:56

    Esse livro parece ser mesmo delicado e no mínimo, inovador… mas toda e qualquer impressão que tive foi pelo ralo com essa história do menino de 12 anos. Ele mal entrou na puberdade e… gente! No meio do choque, só consigo me perguntar que ambiente familiar e que “amizades” trazem valores nojentos e deturpados como esses.

    • Olga
      5 de junho de 2013 at 16:51

      Bia, obrigada pela visita e pelas palavras tão gentis.

      Respondo para você aqui, pois tive a mesma reação que você ao saber dessa história do menino de 12 anos. É engraçado como uma coisa dessas pode mexer com a gente de maneira tão forte, né? Parece insignificante, mas não é. É arranhar nossa liberdade – de ir e vir, de expressão, de apenas ser (mulher, ser humano). Dói, machuca. Mas tento me manter positiva. Vejo o quanto já caminhamos, o quanto já conquistamos. Não vamos perder o ânimo. Ainda há muito o que fazer? Pois então vamos fazer! Conto com sua ajuda 🙂 Beijo grande!

  2. Hadassah
    17 de junho de 2013 at 14:47

    Olá! Adorei a entrevista e gostaria de saber se poderia publicá-la no meu blog, claro, dando todos os direitos e créditos.
    Vou esperar a resposta
    Obrigada

    • Olga
      17 de junho de 2013 at 14:52

      Oi, Hadassah. Feliz que tenha gostado. Pode republicar a entrevista, sim. Obrigada por entrar em contato. Um beijo!

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