A revolução feminina será televisionada

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Do ponto de vista mercadológico e criativo, nunca falou-se tanto na ameaça que os seriados apresentam ao domínio simbólico do cinema: a sétima arte. A tevê, que não possui este status, experimenta um certo crédito (ao menos imediato) com a migração significativa de público, recursos e artistas que acolhe. Para ilustrar a questão: Al Pacino, o eterno Michael Corleone, encarnou Phil Spector em filme da HBO. Jessica Lange e Steve Buscemi à frente de American Horror Story e Boardwalk Empire, respectivamente. Os irmãos Wachowski, famosos pela trilogia Matrix, produzem uma série em parceria com o Netflix. Em breve, neurocientistas – os xamãs do novo milênio – estarão discutindo efeitos dos sites de streaming no comportamento das pessoas.

Com a mudança de cenário, as personagens femininas também respiraram novos ares. Não foi sempre assim, claro. Tradicionalmente, nos deparamos com três tipos unidimensionais de mulheres roteirizadas:

1) A neurótica control-freak às voltas com dramas amorosos. É através da aparição e consequente envolvimento com um homem-ideal que se justifica a existência dela na trama. É importante frisar que o sujeito em questão deve atender a uma lista louca de atributos de príncipe encantado, a ausência deles é história, a concordância com eles resulta em final feliz. Já virou piada: todas poderiam ser interpretadas pela Katherine Heigl. Exemplo: Carrie Bradshaw (Sex and the City), Penny (The Big Bang Theory), Zoe (Hart of Dixie).

2) A mulher inteligente e/ou em posição de poder, porém “emocionalmente travada” ou, pior, dona de um raciocínio masculinizado. Este tipo avança em consistência psicológica e dramática em relação à anterior, mas costuma ser mal desenvolvida. Mais uma vez, ela é “salva” de sua condição diante da aparição de um homem-ideal, que a feminiliza. Exemplos: Temperance Brennan (Bones), Olivia Pope (Scandal) e Robin (How I Met You Mother).

3) A mulher-musa. Tom Jobim e Vinícius de Moraes chamavam de Garota de Ipanema, os hipsters chamam de Zooey Deschanel. Lá fora, ela leva o nome de Manic Pixie Dream Girl e existe apenas para dar sentido e ação à vida de um protagonista masculino impotente. Exemplo: Jess Day (New Girl).

Não proponho a erradicação de nenhuma das personagens acima, até porque, toda tipificação é reducionista. Muitas das que se encaixam nestes modelos apresentam outras camadas dramáticas e, por isso mesmo, é interessante notar uma expansão nos retratos femininos em tevê. Vamos dar uma olhada em Joan Holloway/Harris, de Mad Men e Hannah Horvath, de Girls.

AS NOVAS MULHERES NA TV

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Joan Holloway/Harris (Mad Men)

Joan inicia seu percurso na série como o estereótipo da femme fatale, contudo, em busca do príncipe encantado. O que já apresenta uma forte contradição, mesmo que essa procura se dê menos por conta de romantismo exacerbado e mais por noções práticas de dificuldade da vida de mulher nos anos 60. A grande questão de Joan é sempre a honra. Um marido a estabilizaria e daria a ela respeitabilidade, acima de tudo. E é sempre este o seu valor que é negociado ao longo dos anos. Joan é estuprada pelo noivo e prostituída para atrair um cliente poderoso. Cede às aparências que busca controlar, mas, mesmo diante da passividade e dos “trabalhos de mulher” que lhe são imputados, assume outras nuances.

Seu maior laço amoroso vem de um relacionamento extraconjugal com Roger Sterling, um dos sócios da agência. É ela também quem administra o escritório e, em diversas oportunidades, ficamos sabendo que a agência não funciona sem Joan. Ainda no momento em que é mais vitimizada pelo machismo, ela assume algum controle: em vez de aceitar apenas os US$ 50 mil que lhe são oferecidos por dormir com o dono da Jaguar, pede 5% da empresa e poder de voto nas reuniões de sócios.

Joan também cria sozinha um filho gerado fora do casamento, põe o marido para fora de casa e lida com o preconceito das próprias colegas de trabalho como ninguém. Não supervalorizo migalhas, mas ainda que fragilizada e anacrônica, ela se mostra mais moderna e corajosa que a maior parte das protagonistas que abocanharam estatuetas do Oscar.

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Hannah Horvath (Girls)

Já Hannah, muito discutida e odiada, é mesmo em alguma medida a voz de outra geração. É ela quem expõe questões tão “millennial” quanto a supervalorização das experiências, que escravizam e afastam do próprio eu. Dos próprios desejos. O sexo, tão exaustivamente mostrado em Girls, nem sempre é motivo de prazer. Já o trabalho é uma empreitada quixotesca: enquanto busca um gigante, se depara com moinhos de vento. Ela passa por empregos que, muitas vezes, roubam a dignidade. Ao jogar esta verdade na cara de, principalmente, aqueles que já passaram por isso e acham que é o caminho natural das coisas, soa um abuso. Uma verdade amarga demais, que é melhor engolir sem passar muito tempo pela boca.

Seja Joan, uma mulher de ontem com arroubos do amanhã; ou Hannah, tão de hoje; elas assumem o papel de protagonistas de suas próprias histórias. Não sei se todo mundo que reivindica a mudança de padrões está consciente da importância deste processo, mas vivemos em uma sociedade que tem paixão pelo real, se Žižek e Baudrillard me permitem o uso da expressão. Não à toa existem tantos reality shows. A ficção sempre viveu de mimetizar a realidade, mas esta questão me parece cada vez mais atual: a protagonista flat não cabe mais na vida das outras mulheres, não cabe na nossa medida de empatia. É por meio deste desejo de empatia (e de companhia, por que não?) que já se vislumbra uma ficção mais complexa e dialógica.


Mariana Araújo, 25 anos, é repórter de entretenimento da Revista GLOSS e autora do blog Louca Por Séries. Ela cursou 3 anos de Física na USP, mas se formou mesmo em jornalismo na Cásper Líbero.

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.

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8 comments on “A revolução feminina será televisionada

  1. Raven
    12 de junho de 2013 at 01:15

    Muito boa a crítica e muito bom o blog. =) Eu recomendo tb a Joan Watson, que faz o Dr Watson na série Elementary, sobre Sherlock Holmes. Lindamente representada pela Lucy Liu, ela é de uma importância imprescindível no enredo da série. ^^

  2. Raven
    12 de junho de 2013 at 01:15

    Muito boa a crítica e muito bom o blog. =) Eu recomendo tb a Joan Watson, que faz o Dr Watson na série Elementary, sobre Sherlock Holmes. Lindamente representada pela Lucy Liu, ela é de uma importância imprescindível no enredo da série. ^^

  3. Raven
    12 de junho de 2013 at 01:15

    Muito boa a crítica e muito bom o blog. =) Eu recomendo tb a Joan Watson, que faz o Dr Watson na série Elementary, sobre Sherlock Holmes. Lindamente representada pela Lucy Liu, ela é de uma importância imprescindível no enredo da série. ^^

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