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Abdique da coroa

olga princesas

Merida, a princesa da animação Valente, passou por uma mudança no visual por parte da Disney na semana passada. A protagonista – hábil em arco e flecha e famosa por ser, como o próprio nome do filme diz, corajosa – ganhou uma imagem sensualizada com decote maior, cintura menor, rosto menos infantil. O motivo? Neste mês, Merida entrou para a franquia Disney Princesas, que licencia todos os tipos de produtos infantis com desenhos das personagens. O propósito? Padronizá-la, deixá-la mais parecida com as outras princesas.

“Acho cruel o que eles fizeram com Merida”, escreveu Brenda Chapman, a criadora do desenho, no Marin Independent Journal. “Ela foi criada para servir de exemplo às garotas de um personagem que fosse melhor, mais forte e não apenas um rostinho bonito à espera de um príncipe encantado”. No site change.org, cerca de 230 mil pessoas contestaram a alteração do visual. “Merida era a princesa que por tanto tempo esperamos: forte, confiante, que não precisa de ninguém para socorrê-la. Ela era a princesa que se parecia com uma garota real, com as mesmas imperfeições que todo mundo tem”, diz o abaixo assinado.

olga merida

A Disney voltou atrás. E algumas pessoas até se perguntaram se era para tanto. Será? Durante um papo com a antropóloga Michele Escoura descubro que sim, é para tanto. Em sua pesquisa para a USP, ela analisou a influência das Princesas Disney nas meninas. Conversamos sobre como a distinção de gêneros feita logo cedo afeta as crianças que, aos 5 anos, já entendem o que são padrões de beleza.


“Quando dei início ao trabalho de campo, vi uma menina rodando a saia na sala de aula. Ela queria chamar a minha atenção e gritava ‘tia, tia, olha meu vestido, rodo igual princesa, sou a Cinderela’. Cinderela?, pensei. Como que um personagem de 1950, que eu, 20 anos atrás, assistia ao desenho, ainda tem influência nas crianças hoje? 

Logo percebi que a presença tão marcante da Cinderela se deve muito por conta da Disney Princesas, franquia que licencia a imagem das personagens para todo tipo de produto. E como as crianças consomem muito – mochila, estojo, caderno, roupas, decoração de festa – a princesa está em seu cotidiano. E a Cinderela é a líder desse grupo, sempre ao centro das imagens divulgadas.

Por um ano, acompanhei três turmas de crianças, em três escolas, para compreender a mensagem que recebiam das princesas. A primeira delas é que, para ser princesa, é preciso um príncipe. Uma das meninas até me falou: ‘para ser princesa, tia, precisa se casar. Senão não vai ser princesa, vai ser solteira‘.

Outra mensagem está associada à dimensão estética. Para ganhar uma coroa, é  necessário ser bonita, jovem e elegante. O título real, na verdade, não importa. O essencial é parecer uma. Além de Cinderela, passava o filme da Mulan  [heroína chinesa baseada em um mito chinês]. E um menino me disse uma vez que a Mulan não poderia ser uma princesa porque ela ‘usava uma maquiagem branca feia’. Outra menina disse que a Mulan era linda, mas quando pedi para desenhá-la, a pintou com o cabelo loiro.

olga rainha

Não são as princesas que inventaram o padrão de beleza. Isso é propagado há muito tempo. Mas os desenhos servem como mensageiros do que vemos nas revistas femininas, na protagonista da novela das 6… É impressionante perceber o quanto eles traduzem esses padrões de beleza para crianças entre 4 e 5 anos, e como essas meninas já entenderam como o mundo funciona. Em uma das escolas, onde a maioria dos alunos era negra, vi duas meninas brincando de cabeleireiro em que uma fingia alisar e pintar o cabelo da outra. Já entenderam que para ser mulher – a imagem da mulher que é divulgada e aceita como a única por aí – ela tem que ter cabelo liso e loiro. 

As crianças sabem que existem outras formas? Sim. Mas também entendem que apenas algumas delas são valorizadas. Por isso, precisamos circular outros valores. Dar o mesmo status de importância e poder às outras formas, aos diferentes tipos de cabelos, de pele, de estilo.”

ABDIQUE DA COROA 

Michele sugere livros que trabalham a feminilidade de forma diferente ao das princesas.

As tranças de Bitou

As Tranças de Bintou é uma linda história, escrita por Sylviane A. Diouf, que conta o sonho de Bintou, uma menina africana, de ter tranças como todas as mulheres mais velhas de sua aldeia. Mas, como ainda é criança, tem de se contentar com os birotes. A autora Sylviane A. Diouf, filha de pai senegalês e mãe francesa, criou uma delicada história sobre a angústia do rito de passagem e o aprendizado do crescimento.” (Bloginfo)

olga trancas de bitou

Uma princesa nada boba

“O escritor Luiz Antonio mostra uma menina negra contando em primeira pessoa seu sonho de ser uma princesa como as outras (loira e com nomes como Stephanie), e revela, no decorrer das páginas, como ela pode ser muito mais princesa do que imagina.” (Revista Crescer)

olga princesa nada boba

Existe algo mais chato do que ser uma princesa rosa?

Ainda sem tradução para o português, infelizmente. No entanto, é possível ler o livro em espanhol online e de graça aqui.
Carlota é uma princesa, mas está cansada da cor rosa e não quer mais saber de beijar sapos para ver se eles viram príncipes. Por que ela não pode salvar príncipes das garras de lobos, derrotar dragões e voar em balões?

olga princesa rosa

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Sobre Think Olga

A OLGA é um projeto feminista criado em abril de 2013 cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação.

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6 comments on “Abdique da coroa

  1. Mariana Vilela
    26 de maio de 2013 at 21:50

    Ótimo texto. Não sabia da transformação da Merida no esteriótipo de princesa Disney para combinar com as demais e vender licenciamento. Mas que bom que voltaram atrás, espero que ela se mantenha assim mesmo: forte e real como queremos ver a mulher de verdade retratada. Como você diz em seu texto, as crianças precisam muito desses exemplos. Ver uma criança negra querendo cabelos loiros e lisos é muito triste mesmo.

    • Olga
      27 de maio de 2013 at 05:22

      Oi, Mariana. Feliz que você gostou do post. Sou extremamente positiva e acho que só as coisas só têm a melhorar. Talvez, 5 anos atrás, a mudança da Merida tivesse passado despercebida. Mas olha só, hoje mais de 200 mil pessoas se juntaram para pedir que a personagem mantivesse seu visual. Bom, né? Não precisamos mais de padronizações. Um beijo!

  2. Duda Kiame
    12 de novembro de 2013 at 12:21

    Oi! Na verdade foi um outro texto aqui do blog que me trouxe até aqui e eu não fazia ideia de que a Merida sofreu uma mudança! Que triste! Eu adorei o post sempre muito elucidativo, obrigada!!
    Continuem com o ótimo trabalho,
    Um beijo,
    Duda Kiame

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